É esse o pano de fundo que torna o evento do iPhone especialmente importante para Wall Street. Mais do que avaliar o novo aparelho, investidores estarão atentos a preços, demanda, margens de lucro e capacidade da Apple de voltar a entregar crescimento consistente.
Ação cara aumenta a pressão
A Apple negocia atualmente a cerca de 33 vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses, acima da média de 23 vezes registrada nos últimos dez anos, segundo dados compilados pela Bloomberg.
Isso significa que os investidores estão pagando cerca de US$ 33 por cada US$ 1 de lucro que esperam que a Apple tenha nos próximos 12 meses. Esse cálculo é feito pelo P/L (preço sobre lucro), um indicador usado para avaliar quanto uma ação está cara ou barata em relação aos resultados da empresa.
Como o múltiplo da Apple está bem acima de sua média histórica, o mercado espera um crescimento forte dos lucros. Isso também aumenta a pressão sobre a companhia: se os resultados ou as perspectivas de crescimento decepcionarem, a ação pode sofrer uma correção maior.
“Não é barato, mas acredito que há valor de longo prazo nas ações. Os investidores querem ver crescimento”, disse Gerald Sparrow, diretor de investimentos do Sparrow Growth Fund, que possui ações da Apple.
O problema é que o crescimento dos lucros começa a perder força.
Depois de registrar altas de dois dígitos em trimestres consecutivos, o lucro líquido da Apple deve crescer cerca de 6% no quarto trimestre fiscal e apenas 1% no primeiro trimestre fiscal seguinte, segundo a média das estimativas de analistas compiladas pela Bloomberg.
Preço será o principal teste
É nesse ponto que o novo iPhone entra na equação. O mercado espera que a Apple aumente os preços de parte da nova linha para compensar o aumento dos custos de componentes, especialmente de memória. O problema é que há um limite para o quanto a companhia consegue repassar ao consumidor sem prejudicar as vendas.
Nos Estados Unidos, o iPhone dobrável deve chegar por cerca de US$ 2 mil. No Brasil, o preço pode chegar a aproximadamente R$ 21 mil, considerando a diferença de preços praticada pela Apple nos dois mercados.
A estimativa usa como referência um iPhone vendido por R$ 11.499 no site brasileiro da Apple, enquanto o mesmo modelo custa US$ 1.099 nos Estados Unidos. Aplicando essa mesma proporção a um aparelho de US$ 2 mil, o preço no Brasil chegaria a cerca de R$ 21 mil.
Mesmo nesse patamar, o aparelho ainda seria mais barato que o Huawei Mate XT Ultimate Design, celular de três telas vendido no Brasil por cerca de R$ 33 mil.
Mas é justamente aí que está o risco para a Apple. Quanto mais alto o preço, menor tende a ser o público disposto a comprar o aparelho. Para Wall Street, portanto, não basta saber quanto a companhia conseguirá cobrar. É preciso avaliar se o preço será alto o suficiente para proteger as margens, mas não tão alto a ponto de limitar demais as vendas.
A questão é conhecida entre os investidores como elasticidade da demanda: quanto as vendas caem quando o preço sobe.
Para a Apple, o dilema é importante. A companhia pode aumentar os preços e preservar suas margens de lucro, mas corre o risco de vender menos aparelhos. Ou pode segurar os preços, proteger o volume de vendas e aceitar uma pressão maior sobre as margens.
“Os preços continuam sendo a principal incógnita e, em nossa visão, a variável com maior probabilidade de determinar a reação das ações”, escreveu o analista do JPMorgan Samik Chatterjee em relatório a clientes.
A análise do banco de investimentos americano KeyBanc Capital Markets é mais cautelosa. Para os analistas, o lançamento pode acabar pressionando as ações se os aumentos de preços não forem suficientes para compensar os custos maiores sem afastar os consumidores. Nesse cenário, a Apple poderia enfrentar uma combinação de vendas mais fracas e margens de lucro menores.
iPhone dobrável pode ser grande, mas ainda é nicho
O novo aparelho também precisa provar que pode criar um novo ciclo de crescimento para a Apple.
O Morgan Stanley estima que o iPhone dobrável possa gerar cerca de US$ 14 bilhões em receita no trimestre de dezembro, com algo entre 7 milhões e 8 milhões de unidades vendidas.
A previsão é expressiva, mas ainda pequena diante do tamanho da Apple.
Por isso, o mercado não está olhando apenas para quantos dobráveis a companhia conseguirá vender. A questão é se o produto será capaz de estimular consumidores a trocar seus aparelhos e abrir uma nova categoria de produtos premium.
Há uma dúvida importante: celulares dobráveis continuam sendo um segmento pequeno do mercado global de smartphones. A Apple entra agora em uma categoria que Samsung, Huawei e outras fabricantes exploram há anos.
A vantagem para a Apple é que ela pode entrar depois dos concorrentes e tentar corrigir problemas que limitaram a popularidade desses aparelhos, como resistência e a marca visível da dobra na tela.
Inteligência artificial continua no radar
O outro grande problema para a Apple é a inteligência artificial. A companhia ainda é vista como atrasada em relação a concorrentes como Google e Microsoft na corrida pela IA. Para investidores, isso representa uma questão mais importante do que simplesmente lançar um novo modelo de iPhone.
A preocupação é que a Apple esteja cada vez mais dependente de parceiros para desenvolver sua estratégia de inteligência artificial. A empresa, por exemplo, recorre à tecnologia do Google para parte da reformulação da Siri.
O sucesso dessa estratégia pode ser decisivo para a percepção do mercado sobre a Apple nos próximos anos.
“A Apple precisa fazer mais em termos de suas próprias capacidades”, disse Jed Ellerbroek, gestor da Argent Capital Management.
Para ele, a posição competitiva da empresa continua forte, mas existem sinais fora dos resultados financeiros que indicam que nem tudo está funcionando perfeitamente.
O problema de surpreender
Há ainda uma característica peculiar das ações da Apple: boas notícias podem não ser suficientes para fazer a ação subir. Investidores já conhecem a força da marca, a fidelidade dos consumidores e a capacidade da companhia de gerar caixa. Por isso, o mercado tende a exigir novidades capazes de superar expectativas que já estão incorporadas ao preço.
O histórico mostra essa dificuldade. A ação caiu em cinco dos últimos oito dias de lançamento de novos iPhones. Ao mesmo tempo, os papéis acumulam, em média, uma alta de cerca de 10% nos seis meses seguintes aos lançamentos, segundo dados da Bloomberg desde 2007.
Ou seja, uma reação negativa no pregão do evento não necessariamente significa que Wall Street perdeu a confiança na Apple. O que importa é o impacto sobre as estimativas de vendas e lucro nos meses seguintes.
O que pode mudar a tese para as ações
Para Wall Street, o lançamento pode ser positivo se a Apple conseguir combinar três elementos: preços mais altos, manutenção das margens e demanda forte.
Se a companhia aumentar os preços sem provocar uma queda significativa nas vendas, poderá mostrar que tem espaço para continuar extraindo mais receita de sua base de consumidores premium.
Se, por outro lado, os preços mais altos reduzirem os volumes, os investidores terão de reconsiderar as estimativas de crescimento — especialmente porque a ação já negocia com um prêmio elevado em relação ao seu histórico.
É por isso que o iPhone dobrável importa menos pelo número de unidades que venderá imediatamente e mais pelo que ele pode sinalizar sobre a próxima fase da Apple.
