Hoje, esses mesmos títulos pagam menos de 7% de juros reais. No Tesouro IPCA+ 2040, a queda supera 1 ponto percentual desde o fim de julho, com mais da metade dela concentrada nos primeiros pregões desta semana.
O movimento reflete o cenário de favoritismo de Flávio Bolsonaro sobre Lula depois do primeiro turno, algo que, na visão do mercado, aumenta as chances de um ajuste nas contas públicas no próximo governo. Com essa perspectiva, os investidores passaram a exigir um prêmio menor para financiar a dívida do país.
Se o cenário se confirmar no segundo turno, em 25 de outubro, até taxas de 7% podem ficar ainda mais distantes do que o mercado oferece.
O movimento em números
No Tesouro IPCA+ 2040, a taxa saiu de 7,78% ao ano acima da inflação no fim de julho para 7,25% na sexta-feira (2), último pregão antes da votação. Nesta quarta-feira (7), era negociada a 6,67%: trata-se de um recuo de 0,58 ponto percentual em apenas três pregões, e de 1,11 ponto desde 31 de julho.
Na renda fixa, taxa de juro e preço do papel caminham em direções opostas: isso significa que quem já tinha o papel na carteira viu o saldo subir com essa queda no retorno.
O título valorizou 17,26% em dois meses e sete dias, o equivalente a 705% do CDI no período: R$ 10 mil aplicados em 31 de julho se transformariam em R$ 11,7 mil, um lucro de R$ 1,7 mil, antes de impostos e taxas. No CDI, os mesmos R$ 10 mil virariam R$ 10,2 mil.
E, quanto mais longo o prazo de vencimento do título, mais o investidor sente qualquer mexida nas taxas.
O IPCA+ 2050 mostra bem isso: ele saiu de 7,46% em julho para 7,08% na sexta e chegou a 6,61% hoje, queda de 0,85 ponto percentual. A valorização foi de 22,67%, ou 926% do CDI do período. Aplicados nesse título, os mesmos R$ 10 mil virariam R$ 12,3 mil, um lucro de R$ 2,3 mil.
No IPCA+ 2032, de prazo mais curto, o valor do papel também andou para mais, embora com variação menor.
A taxa recuou de 8,25% para 6,86%, levando o papel para ganhos de 9,7%, ou 396% do CDI: R$ 10 mil viraram quase R$ 11 mil.
O movimento, aliás, não ficou restrito aos títulos atrelados à inflação. O Tesouro Prefixado 2032 viu a taxa cair de 14,59% no fim de julho para 12,81% hoje, queda de 1,78 ponto percentual, sendo 1,4 ponto só nesta semana. Quem estava com o papel ganhou 11,26%, o equivalente a 460% do CDI. Nesse caso, R$ 10 mil virariam R$ 11,1 mil.
Por que as taxas caíram?
O mercado passou a apostar de forma mais crível em um ajuste fiscal que possa reduzir os riscos da dívida pública. Quando as contas do governo preocupam, o investidor exige um adicional para emprestar, o chamado prêmio de risco. Com chances maiores de reformas, esse adicional encolhe e as projeções de juros para os próximos anos também.
Para o UBS, o resultado de domingo (4) aumentou “significativamente” a chance de uma mudança de rumo nas expectativas fiscais.
Com esse cenário, os economistas do banco apontavam para uma queda de 1,5 a 2,0 ponto percentual nas taxas dos juros de longo prazo já de forma quase imediata (partiam de 14,25% na sexta), com projeção de recuar para 10% até o fim de 2027, se a agenda fiscal se concretizar.
O que fazer agora?
A queda dos juros tem efeitos diferentes para quem já investiu e para quem pretende entrar agora. Quem já tinha o papel se beneficiou da valorização, que só se torna dinheiro se o título for vendido antes do vencimento. Quem segura até o fim recebe a taxa contratada na compra. Já quem entra agora encontra taxas menores – e o papel tem menos perspectiva de ganho.
Isso não significa que o movimento esgotou. Parte da melhora já entrou nos preços, mas ainda há espaço para novas quedas se a expectativa de ajuste fiscal ganhar força.
A TAG Investimentos, por exemplo, diz manter posição “muito favorável” aos títulos indexados à inflação e estar “alongando” os vencimentos dessa carteira, para ganhar mais se as taxas continuarem caindo. A gestora também pretende aumentar a exposição aos prefixados.
Só que esse espaço tem limite, e boa parte dele vem de fora. Com os juros globais mais altos – nos Estados Unidos voltou a subir -, o Itaú vê um piso de 5% a 5,5% para as taxas reais, descontadas da inflação, por aqui, mesmo com ajuste fiscal.
A XP lembra que, como os juros reais americanos estão perto de 3%, levar o juro real brasileiro à faixa de 5,5% a 6% já exigiria uma melhora bastante expressiva na percepção de risco do país, o que não é tão simples de acontecer.
