Yevgeny Prigozhin moldou a imagem pública do filho para adequá-la à de um futuro chefe de mercenários. Fotos publicadas nas redes sociais apresentavam Pavel como um patriota russo: combatendo na guerra civil da Síria, onde recebeu a Cruz Negra do Wagner por bravura, e atuando como oficial de inteligência e operador de drones na Ucrânia.
“Meu filho já está participando da operação militar especial”, vangloriou-se Yevgeny Prigozhin na internet seis meses depois do início da invasão russa da Ucrânia, em 2022.
Ele nomeou o filho como principal herdeiro em seu testamento, segundo o All Eyes on Wagner, que publicou o documento obtido em um processo judicial. Pavel assumiu o comando do Wagner após a morte do pai.
Hoje, Pavel Prigozhin viaja regularmente de sua casa em São Petersburgo para Bangui. Na capital centro-africana, hospeda-se no luxuoso Ledger Plaza, que funciona como sede informal do Wagner durante suas visitas. Combatentes mascarados, armados com fuzis AK-47, vigiam o perímetro do hotel. Até autoridades de alto escalão e diplomatas precisam passar por verificações de segurança antes de serem autorizados a encontrá-lo, disseram pesquisadores e autoridades centro-africanas.
Com a concordância do governo, Prigozhin ampliou para US$ 250 milhões por ano o valor da produção da maior mina de ouro do país, anteriormente tomada por seu pai, segundo a Iniciativa Global.
“Quando se trata das operações na República Centro-Africana, Pavel seguiu os passos do pai com facilidade”, disse Nathalia Dukhan, pesquisadora sênior da organização.
Autoridades da República Centro-Africana não responderam a um pedido de comentário.
Recuo
Yevgeny Prigozhin, conhecido como “chef de Putin” por ter fornecido refeições para eventos do Kremlin, usou seus contatos no alto escalão para alimentar as grandes ambições que tinha para o Wagner. A força mercenária internacional recebeu o nome do compositor alemão do século 19 Richard Wagner. Seus combatentes se autodenominam “músicos”.
Ele enviou homens para proteger a junta militar de Mali, país da África Ocidental, em troca de US$ 10 milhões por mês, segundo o Centro de Estudos Estratégicos da África, financiado pelo Pentágono. Seus combatentes garantiram a segurança de poços de petróleo em áreas da Líbia controladas por rebeldes. No Sudão, forneceu mísseis antiaéreos às Forças de Apoio Rápido em troca de barras de ouro.
Em determinado momento, Yevgeny Prigozhin chegou a ter 5 mil homens sob seu comando em seis países africanos. A República Centro-Africana, de tamanho semelhante ao estado americano do Texas, foi um de seus empreendimentos mais bem-sucedidos: os minerais extraídos de minas tomadas pelo grupo eram vendidos, e os recursos, divididos entre o Wagner e o governo.
Em contrapartida, mercenários do Wagner comandam unidades do Exército que enfrentam grupos rebeldes empenhados em derrubar o governo de Touadéra por meio de ataques a tropas e civis.
O Wagner também desempenhou um papel importante na invasão da Ucrânia e recrutou presos para ocupar as linhas de frente quando as fileiras militares russas ficaram desfalcadas.
Em 2023, Yevgeny Prigozhin cometeu o erro de desafiar Putin e os líderes militares russos por causa da estratégia adotada na guerra contra a Ucrânia.
Seus mercenários entraram na cidade russa de Rostov-do-Don, um centro estratégico para a guerra, e ameaçaram marchar sobre Moscou, em uma insurreição que durou pouco. Em um vídeo, cercado por homens armados e mascarados, ele chamou os principais líderes militares de Putin de “palhaços geriátricos”.
“Nossos homens morrem porque vocês os tratam como carne”, disse. “Sem munição, sem planos.”
Ele rapidamente interrompeu a marcha e aceitou um acordo que poupou sua vida e a de seus combatentes. Dois meses depois, seu avião caiu, matando Prigozhin, seu principal comandante militar e outras oito pessoas.
Após sua morte, o Kremlin assumiu o controle dos negócios do Wagner na Rússia e criou o Africa Corps para incorporar as operações do grupo ao Ministério da Defesa russo. Enquanto o Wagner funcionava como uma empresa militar semiprivada a serviço dos interesses geopolíticos do Kremlin, o Africa Corps responde diretamente às autoridades de defesa e à inteligência militar russas.
Pavel Prigozhin agiu rapidamente para preservar suas operações na República Centro-Africana fora do alcance de Putin. Ele voou para Bangui para se reunir com Dmitry Sytii, representante local do Wagner e antigo homem de confiança de seu pai, e com Denis Suprunov, comandante militar do grupo no país, disseram pesquisadores e autoridades de segurança. Prigozhin também se reuniu com integrantes do alto escalão do governo em hotéis, restaurantes e escritórios.

O presidente Touadéra enviou uma mensagem diplomática a Moscou pedindo ao Kremlin que não substituísse os combatentes do Wagner por militares russos em seu país, segundo diplomatas e pesquisadores. Touadéra ajudou Prigozhin a consolidar sua posição, integrando mercenários do grupo à polícia, ao Exército e às unidades de inteligência locais.
“Bangui lutou mais do que qualquer outra capital para manter o acordo de proteção do regime em troca de minerais justamente porque ele havia funcionado tão bem”, disse Justyna Gudzowska, diretora-executiva da Sentry, organização de investigação sediada em Washington.
Em abril, Prigozhin convocou os principais integrantes do Wagner e autoridades do governo para uma reunião em seu hotel em Bangui. O objetivo era planejar a melhor forma de manter o fluxo de ouro para os mercados internacionais, segundo autoridades e antigos colaboradores do grupo. O ministro de Minas, Rufin Benam Beltoungou, e representantes do Wagner discutiram maneiras de evitar o escrutínio internacional, contornando os mercados de ouro dos Emirados Árabes Unidos, disseram autoridades do governo.
Beltoungou e o Ministério de Minas da República Centro-Africana não responderam a um pedido de comentário.
Depois de horas de discussão, Beltoungou, um aliado próximo do Wagner, concordou em ajudar Prigozhin a levar ouro aos mercados internacionais por meio da emissão de documentos que identificavam o metal como propriedade do governo, disseram as autoridades.
Nos últimos três meses, esses carregamentos de ouro foram enviados a Belarus, um aliado próximo do Kremlin, segundo autoridades e pesquisadores locais.
O negócio das drogas
Sytii, hoje o segundo no comando de Prigozhin, administra emissoras de rádio financiadas pelo Wagner que veiculam propaganda contra o Ocidente para fortalecer Touadéra. O presidente conquistou um terceiro mandato em dezembro, em uma eleição que observadores internacionais consideraram sem liberdade nem lisura. Críticos o chamam de “Presidente Wagner” por causa da suposta influência do grupo.
Nas ruas de Bangui, outdoors patrocinados pelo Wagner apresentam a Rússia como o parceiro preferencial dos países africanos, segundo moradores e pesquisadores locais. A iniciativa faz parte de uma campanha para manter as boas relações com Putin. Nas rádios financiadas pelo grupo, comentaristas elogiam a influência russa e atacam os países ocidentais.
Sob Prigozhin, o Wagner reforçou suas fileiras com rebeldes centro-africanos capturados que mudaram de lado e são amplamente conhecidos como “russos negros”.
O grupo também acrescentou o tráfico de drogas ao seu portfólio. Moradores de Bangui compartilharam fotos e vídeos de combatentes mascarados do Wagner, acompanhados por policiais locais, detendo pessoas acusadas de vender drogas fora da rede controlada pelo grupo.
Em um dia do último verão do hemisfério Norte, combatentes mascarados do Wagner, vestidos com uniformes da polícia local, chegaram a uma rua de Bangui conhecida pela venda de opioides, incluindo tramadol. Segundo testemunhas, eles entraram na loja de Mahamat Abderman, que antes administrava a rede de distribuição do grupo, mas havia passado a trabalhar por conta própria.

Abderman fugiu por uma porta dos fundos, perseguido por dois homens. Correu uma curta distância, tropeçou e caiu. Os combatentes o espancaram, e seus familiares dizem que ele nunca mais foi visto.
“Não sabemos se ele está vivo ou morto”, disse um parente.
Milícias pró-governo alinhadas ao Wagner são responsáveis por execuções extrajudiciais, sequestros e ataques direcionados a garimpeiros que entram nas concessões de ouro do grupo, segundo ativistas locais.
Em abril, enquanto Prigozhin estava hospedado no hotel em Bangui, combatentes do Wagner usaram helicópteros russos para fazer vigilância aérea de garimpos informais perto da fronteira com o Sudão do Sul. Pesquisadores locais dizem que ele está de olho em novas reservas de ouro.
Traduzido do inglês por InvestNews

