Os juros também entram nessa conta. O presidente da república não define a Selic, cuja condução cabe ao Banco Central, mas o governo influencia a política fiscal — as decisões sobre arrecadação, gastos e dívida pública — e propõe orçamento e prioridades de gastos.
Mudanças nas expectativas para dívida, inflação e contas públicas podem alterar os juros exigidos pelo mercado financeiro, isto é, o retorno cobrado por investidores para financiar governo e empresas. Isso afeta o custo de financiamento e a avaliação das companhias.
Nas estatais, a ligação pode ser mais direta. A União é controladora da Petrobras e tem influência na escolha de integrantes de seu conselho de administração. Por isso, uma troca de governo pode mudar expectativas sobre gestão, investimentos, dividendos e estratégia da companhia — fatores que também entram no preço das ações.
Como uma surpresa eleitoral mexe com o mercado?
As eleições de 2022 ajudam a mostrar como uma mudança inesperada no cenário pode mexer rapidamente com os preços dos ativos.
Luiz Inácio Lula da Silva terminou o primeiro turno com 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro. A diferença de 5,23 pontos ficou abaixo da vantagem indicada pelas principais pesquisas antes da votação.
No pregão seguinte, em 3 de outubro de 2022, o Ibovespa avançou 5,54%, enquanto o dólar caiu 4,02% e os juros futuros recuaram. Dois fatores eleitorais entre as explicações para o movimento: Bolsonaro havia obtido um resultado acima do indicado pelas principais pesquisas e o Congresso eleito ganhou uma composição mais à direita. Investidores avaliavam que esse Legislativo poderia restringir mudanças mais amplas na política econômica do governo seguinte.
O movimento citado acima não foi explicado apenas pela eleição: o ambiente externo também ajudou os ativos brasileiros naquele dia.
Como as eleições podem mexer com o dólar?
Uma eleição pode mexer com o dólar porque também altera a percepção de risco dos investidores sobre o país.
Se investidores estrangeiros aumentam a procura por ativos brasileiros, pode haver maior demanda por reais, favorecendo a valorização da moeda. Já uma redução dessas posições ou a saída de recursos pode pressionar o real para baixo.
Um exemplo apareceu depois do primeiro turno de 2022. No pregão seguinte à votação, o dólar caiu cerca de 4%, para perto de R$ 5,18, enquanto investidores reagiam ao resultado mais apertado do que indicavam as pesquisas e à nova composição do Congresso.
O câmbio também era favorecido pelo cenário externo naquele dia, mas a queda do dólar frente ao real foi muito maior do que o recuo da moeda americana no exterior.
Um estudo publicado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) em novembro de 2025 ajuda a mostrar que esse mecanismo não fica restrito à oscilação diária das moedas.
Nos países de menor estabilidade política da amostra, os fluxos privados brutos — que incluem entradas e saídas de capital — ficaram, no trimestre eleitoral, 28,3% abaixo da média dos seis meses anteriores.
Ao analisar 261 eleições em 38 economias emergentes, incluindo o Brasil, entre 1990 e 2020, o estudo encontrou uma redução dos fluxos privados de capital no entorno das eleições.
O efeito foi maior quando a incerteza sobre a política econômica persistia após a votação e menor em países com maior estabilidade política e instituições mais fortes.
Eleições também podem adiar investimentos
O efeito das eleições não aparece apenas nas oscilações de bolsa e dólar. Diante da incerteza sobre as políticas do próximo governo, empresas e investidores também podem esperar mais clareza antes de comprometer dinheiro em decisões de longo prazo.
Foi justamente onde o FMI encontrou os resultados mais claros. O impacto eleitoral apareceu no investimento estrangeiro direto e em operações como empréstimos e financiamentos transfronteiriços, ou seja, crédito concedido entre agentes de países diferentes.
Nos países de menor estabilidade política da amostra, os fluxos privados brutos ficaram, no trimestre eleitoral, 28,3% abaixo da média dos seis meses anteriores. Isso indica como a combinação entre eleição e maior incerteza política pode pesar sobre decisões de investimento.
Por que os juros futuros também reagem?
Os juros futuros refletem expectativas sobre inflação, dívida pública, política fiscal, crescimento da economia e trajetória da Selic. Por isso, uma eleição pode mexer com esses contratos se alterar a percepção dos investidores sobre como o próximo governo pretende arrecadar, gastar e administrar as contas públicas.
O próprio Banco Central reconhece que a política fiscal pode afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e o prêmio exigido pelos investidores na curva de juros. A curva de juros mostra quanto o mercado exige de retorno para diferentes prazos. Essas taxas incorporam expectativas sobre a Selic, a inflação e o risco fiscal, entre outros fatores.
Quanto maior o risco percebido, maior pode ser o retorno exigido para emprestar dinheiro por prazos mais longos.
Um exemplo apareceu depois do primeiro turno de 2022, quando os juros futuros recuaram. Na época, parte do movimento forma relacionados ao resultado mais forte da direita no Congresso e à expectativa de que a nova composição do Legislativo pudesse limitar uma eventual expansão fiscal no governo seguinte.
A eleição, portanto, não determina sozinha os juros, mas pode mudar as projeções que ajudam a formar essas taxas anos antes de uma política efetivamente entrar em vigor.
