A inteligência artificial permite clonar vozes, alterar movimentos da boca e colocar candidatos em situações que nunca aconteceram. A tecnologia também pode produzir vídeos e áudios falsos sem as distorções visuais que normalmente levantam suspeitas.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu o uso de deepfake para favorecer ou prejudicar candidaturas e determinou que conteúdos eleitorais criados ou alterados por inteligência artificial tragam uma identificação explícita.
O aviso, porém, é apenas um dos pontos que devem ser observados para reconhecer uma possível manipulação.
O que é deepfake?
Deepfake é um conteúdo sintético em áudio ou vídeo, gerado ou manipulado digitalmente para criar, substituir ou alterar a imagem ou a voz de uma pessoa.
A técnica pode simular uma fala inexistente de um candidato, fabricar um apoio político, clonar uma voz ou inserir uma pessoa em uma situação que nunca aconteceu.
Nas Eleições 2026, o TSE proíbe o uso de deepfake mesmo quando a pessoa representada autorizou o uso de sua imagem ou voz. A regra, no entanto, não impede todo uso de inteligência artificial na campanha.
Outros conteúdos sintéticos podem ser utilizados, desde que estejam identificados, respeitem as normas eleitorais e não sejam empregados para divulgar informações falsas ou descontextualizadas.
Como identificar deepfake nas Eleições 2026?
Não existe um único sinal capaz de comprovar, sozinho, que um vídeo ou áudio é falso.
A recomendação é observar o conjunto: origem da publicação, contexto, qualidade da gravação, comportamento da voz, movimentos da boca e existência de registros completos do mesmo episódio.
Procure o aviso de uso de inteligência artificial
A propaganda criada ou significativamente alterada por inteligência artificial deve informar a manipulação de forma explícita, destacada e acessível.
O aviso muda conforme o formato:
- Áudio: deve ser apresentado antes da mensagem;
- Imagem: deve aparecer no próprio conteúdo, como marca d’água, e na audiodescrição;
- Vídeo: deve reunir as identificações previstas para áudio e imagem;
- Material impresso: deve constar em cada página ou face que utilize conteúdo sintético.
A propaganda também deve indicar qual tecnologia foi empregada.
A ausência do aviso pode indicar irregularidade, mas sua presença não torna qualquer conteúdo automaticamente permitido.
Verifique quem publicou
Antes de compartilhar, procure a fonte original. Vídeos encaminhados em grupos, recortados ou publicados sem indicação de autoria oferecem menos elementos para verificação.
Confira:
- Quem publicou primeiro;
- Se o perfil possui histórico;
- Se há indicação de data e local;
- Se o conteúdo aparece nos canais oficiais do candidato, do partido ou do evento;
- Se outras fontes registraram a mesma declaração.
Mensagens alarmantes, apresentadas como urgentes ou acompanhadas de legendas sensacionalistas, também exigem cautela.
A publicação em uma conta conhecida não garante autenticidade. Perfis podem reproduzir informações falsas ou compartilhar materiais sem verificar a origem.
Procure a gravação completa
Vídeos curtos podem esconder cortes, retirar frases do contexto ou juntar momentos diferentes. Por isso, procure a entrevista, o discurso, o debate ou o evento completo.
Uma busca pode ser feita com uma frase marcante do vídeo, o nome do candidato e o local informado na publicação. Também vale conferir se veículos de imprensa, organizadores ou pessoas presentes registraram a mesma fala.
Quando a declaração teria ocorrido em um evento público, outros vídeos e ângulos ajudam a confirmar se o áudio e a imagem pertencem ao mesmo momento.
Observe a voz e os movimentos da boca
Alguns vídeos manipulados apresentam descompasso entre a fala e o movimento dos lábios. A boca pode fechar antes ou depois do som ou formar movimentos incompatíveis com determinadas palavras.
Outros possíveis sinais são:
- Contorno do rosto instável;
- Mudanças repentinas na textura da pele;
- Dentes ou interior da boca pouco definidos;
- Cabelo, barba, óculos ou brincos que mudam durante o vídeo;
- Rosto borrado em movimentos rápidos;
- Expressões que não acompanham o tom da fala;
- Reação do público incompatível com a declaração.
Essas falhas são apenas indícios. Compressão, baixa resolução, conexão ruim e filtros também podem provocar distorções.
Preste atenção no áudio e no ambiente
Uma voz clonada pode apresentar pausas incomuns, mudanças repentinas de entonação ou pronúncias diferentes das usadas normalmente pelo candidato.
O ambiente também pode revelar inconsistências. Desconfie quando:
- O ruído de fundo desaparece entre palavras;
- Determinadas frases têm qualidade de som diferente;
- O eco não corresponde ao local;
- A voz parece próxima, embora a pessoa esteja distante do microfone;
- Há cortes perceptíveis entre palavras ou frases.
Uma montagem também pode combinar palavras verdadeiras retiradas de entrevistas diferentes. Nesse caso, a voz pertence à pessoa, mas a frase completa nunca foi pronunciada daquela forma.
Compare com gravações autênticas
Procure entrevistas e discursos recentes do candidato em fontes confiáveis. Compare sotaque, ritmo da fala, pronúncia, gestos e expressões.
As gravações devem ter condições semelhantes. A voz registrada em estúdio pode soar diferente daquela captada em um comício, entrevista externa ou telefone celular.
Mudanças de aparência e voz também podem decorrer de iluminação, equipamento, emoção ou cansaço. A suspeita aumenta quando diferentes inconsistências aparecem ao mesmo tempo e a publicação não possui origem confirmada.
Não confie apenas em detectores de IA
Ferramentas automáticas podem ajudar na triagem, mas não devem ser tratadas como prova definitiva. Os resultados variam conforme a duração, a qualidade e a compressão do arquivo, além da tecnologia usada na manipulação.
Um resultado que indique alta probabilidade de uso de inteligência artificial é apenas um indício. Da mesma forma, a classificação de um conteúdo como verdadeiro não descarta cortes, alterações ou retirada de contexto.
Para o eleitor, localizar a fonte e a gravação completa costuma ser mais útil do que depender de um único detector.
Todo conteúdo criado com IA é proibido nas Eleições 2026?
A legislação permite determinados usos de inteligência artificial, desde que o material esteja identificado e não seja empregado para espalhar informações falsas ou favorecer ou prejudicar candidaturas por meio de deepfake.
A exigência de aviso não se aplica a ajustes técnicos de qualidade de imagem ou som, elementos de identidade visual, como vinhetas e logomarcas, e montagens fotográficas habituais nas quais candidatos e apoiadores aparecem juntos.
Chatbots, avatares e outros sistemas automatizados também devem informar que são artificiais. Essas ferramentas não podem simular uma conversa direta com o candidato ou com outra pessoa real.
Nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao término da votação, fica proibida a publicação, republicação ou impulsionamento de novos conteúdos sintéticos com imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas, mesmo quando identificados.
