Economia

China retoma compras de petróleo e quadro ajuda Petrobras

A retomada das compras de petróleo pela China está elevando os preços de barris em regiões produtoras tão distantes como a África, o Canadá e o Brasil, à medida que novas interrupções no Estreito de Ormuz levam refinarias a buscar alternativas mais distantes. O contrato do barril do Brent com entrega para daqui a um...

Por · 15:35 6 min de leitura
WhatsApp Facebook X


A retomada das compras de petróleo pela China está elevando os preços de barris em regiões produtoras tão distantes como a África, o Canadá e o Brasil, à medida que novas interrupções no Estreito de Ormuz levam refinarias a buscar alternativas mais distantes.

O contrato do barril do Brent com entrega para daqui a um mês estava sendo negociado nesta segunda-feira (7) a mais de US$ 97, ou seja, próximos dos maiores patamares deste ano. Os ganhos nas cotações se aproximam da casa de 20% nos últimos 30 dias.

A oferta de petróleo do Golfo Pérsico continua restrita, mais de seis meses após o início da Guerra do Irã, enquanto as exportações do país árabe praticamente secaram devido ao bloqueio dos Estados Unidos.

A demanda crescente da China, por sua vez, representa uma reversão em relação aos primeiros meses da guerra, quando o consumo fraco ajudava a conter uma escalada ainda maior dos preços.

A mudança está provocando saltos nos preços de diferentes tipos de petróleo.

O Djeno, do Congo, foi ofertado a compradores chineses nesta semana com prêmios de até US$ 20 por barril sobre o Brent negociado na ICE (Intercontinental Exchange), ante cerca de US$ 15 há duas semanas, segundo traders que falaram com a Bloomberg e pediram anonimato por não terem autorização para falar à imprensa.

A alta está tirando do mercado as refinarias chinesas menores, que operam com margens mais apertadas que as grandes processadoras estatais, disseram as fontes.

Nas últimas semanas, refinarias chinesas também adquiriram petróleo do Canadá, do Brasil e da Argentina.

No Brasil, a Petrobras – em refino e distribuição – e outras petrolíferas de menor porte (as junior oils) continuam a se beneficiar do quadro favorável, segundo visão de analistas do mercado. As ações preferenciais (PETR4) sobem mais de 50% neste ano; as da Prio (PRIO3) ganham acima de 40%.

“Acreditamos que a Petrobras continua a oferecer uma relação risco-retorno atraente”, escreveram analistas do time de pesquisas do BTG Pactual que cobrem a indústria de óleo & gás.

Eles apontaram – em relatório distribuído na semana passada – três fatores para sustentar a visão sobre a Petrobras: “(1) um forte crescimento da produção – de fato, entendemos que o guidance para 2026 é conservador; (2) preços robustos no segmento de refino e distribuição, particularmente ao considerar as subvenções para diesel e gasolina, que levam os preços realizados a níveis elevados; e (3) um valuation atrativo.

Os preços elevados de combustíveis globalmente, aliados aos subsídios do governo no mercado interno, permitem que a Petrobras consiga operar com uma “robusta rentabilidade” a despeito de praticar ainda valores abaixo dos de mercado na importação, segundo o relatório.

Analistas da agência de classificação Moody’s fizeram ressalva semelhante: a de que as medidas do governo federal para tentar limitar o impacto sobre a inflação acabam reduzindo o espaço de ganhos da Petrobras, mas reconheceram que “a gestão de carteira e as fortes margens na produção de petróleo da empresa compensam grande parte do risco associado
à volatilidade dos preços dos combustíveis”.

Segundo cálculos de analistas da Moody’s em recente relatório, o fluxo de caixa operacional da Petrobras aumenta em US$ 5 bilhões a cada elevação de US$ 10 por barril no preço do Brent.

“Seu fluxo de caixa operacional aumenta em US$ 1,9 bilhão para cada elevação de US$ 10 por litro nos preços do diesel, e em US$ 1 bilhão para cada aumento de US$ 10 por litro nos preços da gasolina.”

Cenário para distribuidoras

A perspectiva favorável se estende para o setor de distribuição de combustíveis, segundo a mesma análise do BTG Pactual.

“Embora acreditemos que as margens tenham atingido o pico no segundo trimestre de 2026, entendemos que elas permanecem robustas no terceiro trimestre, o que deve sustentar a geração de fluxo de caixa livre [FCF, na sigla em inglês]. Ambos os fatores terão implicações estruturais para as empresas – a Vibra, por exemplo, deve reduzir rapidamente sua alavancagem”, escreveram os analistas.

“Até agora, nossa melhor estimativa é que as margens Ebitda devem ficar em cerca de R$ 320 por metro cúbico no terceiro trimestre de 2026.”

As distribuidoras, em particular, colheram frutos da repressão do governo à comercialização ilegal de combustíveis, em particular aquela associada ao crime organizado que acabou sendo alvo da Operação Carbono Oculto há um ano – isso permitiu a melhora das margens no mercado.

Impulso amplo da China no petróleo

A forte demanda com impulso da Chinas ainda elevou os preços do ESPO, petróleo russo exportado pela costa do Pacífico.

As cotações dos tipos disponíveis do Oriente Médio dispararam, à medida que a intensificação dos combates entre Estados Unidos e Irã nas últimas semanas reduz as perspectivas de mais fluxo pelo Estreito de Ormuz.

As compras chinesas ainda não voltaram, porém, aos níveis anteriores à guerra. Segundo estimativas do fim do mês passado, elas caminham atualmente para 10 milhões de barris por dia, ante 12 milhões antes do conflito.

A alta não indica necessariamente uma recuperação da demanda chinesa no longo prazo.

A melhora das margens das refinarias, a retomada das exportações de combustíveis e a recomposição de estoques comerciais estão estimulando as compras, enquanto o choque na oferta obriga compradores a competir de maneira mais agressiva.

“As compras robustas da China recentemente são impulsionadas, em grande parte, por refinarias aproveitando margens razoáveis”, disse Liao Na, fundadora da consultoria de energia GL Consulting.

“A recomposição ativa de estoques por agentes comerciais também ajudou, mas não é necessariamente um sinal de uma demanda subjacente mais forte sustentando a recuperação.”

As pequenas refinarias privadas são as mais prejudicadas pela mudança no mercado, pois elas dependiam fortemente de petróleo iraniano e venezuelano com desconto, que não está mais disponível.

As chamadas teapots têm dificuldade para competir com refinarias estatais de maior poder financeiro e grandes independentes, que oferecem mais pelos carregamentos.

A China ainda tem enormes estoques, que lhe dão flexibilidade para comprar menos em períodos de demanda e preços elevados. O país tem pelo menos 1 bilhão de barris de petróleo armazenados, segundo estimativas.

Mesmo que as compras chinesas continuem a se recuperar, um teto estrutural provavelmente limitará as importações no longo prazo.

O presidente da Sinopec, a maior refinaria do país, disse no mês passado que a demanda chinesa por petróleo provavelmente atingiu o pico em 2025.

A rápida adoção de veículos elétricos eliminou cerca de 1,5 milhão de barris por dia da demanda por petróleo no segundo trimestre, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).

A combinação entre estoques abundantes e desaceleração estrutural da demanda significa que a China pode continuar altamente sensível aos preços. O Goldman Sachs estima que as importações de petróleo caíram cerca de 35% em relação ao mesmo período do ano passado.

“A China continuará atuando como uma força estabilizadora nos mercados globais de petróleo bruto ao moderar os picos de preços”, disse Daan Struyven, chefe de pesquisa de petróleo do Goldman, em entrevista à Bloomberg TV.



Invest News

Redacao
Redacao

Redação A Notícia 24H.