Economia

Briga entre herdeiros abala dona da Ray-Ban

Ray-Ban, Oakley, Persol e Sunglass Hut fazem parte do mesmo império: a EssilorLuxottica, grupo avaliado em cerca de € 75 bilhões. O negócio tem origem na pequena oficina fundada em 1961 pelo italiano Leonardo Del Vecchio, que transformou os óculos em acessórios de moda e morreu, em 2022, deixando uma fortuna superior a € 40...

Por · 10:57 6 min de leitura
WhatsApp Facebook X


Ray-Ban, Oakley, Persol e Sunglass Hut fazem parte do mesmo império: a EssilorLuxottica, grupo avaliado em cerca de € 75 bilhões. O negócio tem origem na pequena oficina fundada em 1961 pelo italiano Leonardo Del Vecchio, que transformou os óculos em acessórios de moda e morreu, em 2022, deixando uma fortuna superior a € 40 bilhões e uma sucessão sem comando definido.

Quatro anos depois, a crise chegou à administração do grupo. Leonardo Maria Del Vecchio, quarto filho do fundador, deixou abruptamente os cargos de diretor de estratégia da EssilorLuxottica e presidente da Ray-Ban após fracassar na tentativa de romper o impasse na Delfin, holding familiar e maior acionista da fabricante de óculos.

A saída de Leonardo Maria aconteceu depois da de seu meio-irmão Rocco Basilico, que era diretor de dispositivos vestíveis, que deixou a empresa no início deste ano.

As divergências entre os oito herdeiros e seus numerosos assessores sobre a estrutura, a propriedade e a operação da Delfin provocaram uma crise de governança em uma das principais forças empresariais da Itália. As consequências atingem não apenas a EssilorLuxottica, mas também o setor financeiro do país.

A Delfin é a maior acionista do Banca Monte dei Paschi di Siena, banco que está no centro da mais recente rodada de fusões e aquisições bancárias na Itália. A holding também possui participações na Assicurazioni Generali, uma das maiores seguradoras da Europa, e no UniCredit.

Para a EssilorLuxottica, o impasse envolvendo o patrimônio familiar está se tornando uma distração num momento em que a companhia tenta preservar a vantagem de ter chegado primeiro ao mercado de óculos inteligentes com inteligência artificial, produzidos em parceria com a Meta, e proteger suas margens de lucro. A tarefa fica cada vez mais difícil com a entrada de concorrentes como Apple, Google e Samsung.

“A complexidade da governança corporativa da Delfin afetou as ações da EssilorLuxottica”, afirmou Nicolò Nunziata, estrategista de ações e múltiplas classes de ativos do Banca Finint, que também chamou a atenção para a pressão exercida pelo aumento da concorrência. “A governança é marcada por conflitos internos há anos e certamente poderia melhorar.”

As ações da EssilorLuxottica acumulam queda de cerca de 40% neste ano, o que deixa a companhia com um valor de mercado próximo de € 75 bilhões. Segundo cálculos da Bloomberg referentes à sexta-feira, a empresa representa aproximadamente 60% do valor dos ativos da Delfin.

Para sustentar as ações após a forte desvalorização e a saída de Leonardo Maria, a EssilorLuxottica anunciou na sexta-feira (28) um plano de recompra de até 5 milhões de papéis, avaliados em mais de € 800 milhões pelos preços atuais.

A renúncia de Leonardo Maria marcou uma reviravolta brusca em sua relação com o CEO Francesco Milleri, antigo braço direito escolhido por seu pai para comandar tanto a EssilorLuxottica quanto a Delfin.

Depois de anos apoiando Milleri publicamente, Leonardo Maria aproveitou a carta de despedida para criticar uma cultura empresarial que, segundo ele, havia se tornado mais distante. Afirmou que os executivos eram celebrados quando tudo ia bem, mas deixados de lado quando as coisas ficavam “desconfortáveis”.

“O entusiasmo não é mais o mesmo”, escreveu na carta em que anunciou sua decisão, publicada pelo jornal MF. “O sentimento de pertencimento não é mais o mesmo. A distância é perceptível.”

A saída de Leonardo Maria dos cargos de diretor de estratégia da EssilorLuxottica e presidente da Ray-Ban pode não produzir efeitos imediatos sobre as operações da companhia. Sua atuação estava concentrada principalmente em iniciativas de marketing, como a contratação do rapper A$AP Rocky como diretor criativo da fabricante dos famosos óculos de sol de estilo aviador.

A empresa provavelmente não nomeará substitutos para os cargos deixados por ele, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.

Leonardo Maria Del Vecchio
Foto: Jamie McCarthy/Getty Images

Ainda assim, ao renunciar, Leonardo Maria tornou pública sua insatisfação com a administração da companhia. Não está claro se outros executivos e herdeiros compartilham dessa avaliação. Caso compartilhem, Milleri poderá sofrer mais pressão. Além de CEO da EssilorLuxottica, ele preside a Delfin.

Representantes da EssilorLuxottica, de Milleri e da Delfin não quiseram comentar.

As disputas na Delfin surgiram após a morte de Leonardo Del Vecchio, em 2022. Seu testamento deixou para cada um dos oito herdeiros uma participação de 12,5% na holding familiar, mas não colocou nenhum deles no comando.

A exigência de uma aprovação quase unânime para decisões importantes criou um obstáculo para os herdeiros, divididos entre os seis filhos que Del Vecchio teve com três mulheres; sua viúva, Nicoletta Zampillo; e Rocco Basilico, filho dela de outro casamento.

No início deste ano, o emaranhado de disputas na Delfin parecia caminhar para uma possível solução quando Leonardo Maria se ofereceu para comprar as participações de dois irmãos, Luca e Paola.

O plano de € 10 bilhões lhe daria uma fatia de 37,5% na empresa familiar e abriria caminho para a conclusão do inventário do pai. A proposta foi aprovada em uma votação da família em abril, mas divergências sobre o financiamento e a governança fizeram o negócio naufragar.

Os herdeiros apresentaram à Delfin uma notificação formal para a transferência de suas participações e recorreram à Justiça de Luxemburgo, onde está sediada a holding familiar, numa tentativa de encontrar uma saída para o impasse.

Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, a expectativa é que o tribunal estabeleça formalmente o valor das participações. Não há, porém, um cronograma definido.

Uma avaliação determinada pela Justiça poderia abrir caminho para que os acionistas da Delfin transferissem suas participações para seus próprios family offices. A medida poderia facilitar transações entre familiares ao reduzir as divergências sobre os preços.

Rocco Basilico Foto: Dia Dipasupil/Getty Images

O processo, contudo, não resolverá a disputa familiar nem mudará a governança da Delfin. Tampouco removerá o maior obstáculo: as principais decisões da holding ainda dependem de um amplo acordo entre os membros da família.

“Os problemas de governança da maior acionista da EssilorLuxottica não são novos”, afirmou Margherita Strazzari, gestora de recursos da Sempione SIM. “Embora seja difícil medir o impacto sobre as ações da companhia diante de fatores como o aumento da concorrência no mercado de óculos com IA, acredito que ainda estamos longe de encontrar uma saída clara para o impasse na Delfin. Isso se arrasta há anos.”

“A recompra de ações da EssilorLuxottica demonstra confiança por parte da administração, mas não reduz de fato o risco representado pela Delfin”, acrescentou.



Invest News

Redacao
Redacao

Redação A Notícia 24H.