A operação será estruturada pelo Citibank e contará com o Seguro de Crédito à Exportação (SCE), administrado pela ABGF. Segundo as empresas, é a primeira vez que uma companhia aérea estrangeira obtém financiamento dentro desse modelo para contratar serviços de manutenção de motores de aeronaves no Brasil.
O SCE oferece cobertura contra o risco de inadimplência em operações de exportação de bens e serviços brasileiros. Com essa garantia, uma empresa estrangeira pode obter financiamento para contratar serviços de uma companhia brasileira.
Demanda por manutenção de motores cresce
A operação ocorre em um momento de forte demanda das companhias aéreas por serviços de manutenção de motores. Segundo estudo da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), esse tipo de serviço movimentou cerca de US$ 50 bilhões em 2024, o equivalente a entre 40% e 50% de todos os gastos das empresas aéreas com manutenção de aeronaves.
A demanda deve continuar crescendo nos próximos anos, à medida que uma nova geração de aeronaves entra em operação. Com o aumento das horas de voo, esses motores precisarão passar por revisões e reparos.
Entre os modelos estão o LEAP, da CFM International, e o GTF, da Pratt & Whitney. A IATA estima que, até 2040, os motores LEAP possam passar por mais de 5 mil revisões por ano, enquanto os GTF devem superar 2 mil.
Ao mesmo tempo, a indústria enfrenta restrições na oferta de peças e na capacidade das oficinas. Isso tem aumentado o tempo que algumas aeronaves permanecem fora de operação à espera de motores ou serviços de manutenção.
O problema do fornecimento de motores já havia sido apontado ao InvestNews em junho deste ano por Willie Walsh, que deixou recentemente o cargo de diretor-geral da IATA e assumiu a posição de CEO da companhia aérea indiana IndiGo.
Na entrevista, ainda à frente da IATA, Walsh afirmou que o principal gargalo do setor continuava sendo o fornecimento de motores — não apenas para aeronaves novas, mas também para aviões que já estão em operação e precisam de substituição de motores ou peças.
“O ponto crítico continua sendo o fornecimento de motores. E não se trata apenas dos motores para aeronaves novas. É preciso garantir motores para aviões já entregues que estão parados em solo, à espera de substituição e de peças. Isso é claramente inaceitável.”
Segundo Walsh, a falta de motores e peças tem impacto direto sobre os custos das companhias aéreas. Ele estimou que o problema tenha gerado um impacto financeiro de cerca de US$ 11 bilhões em 2025, considerando gastos adicionais com combustível, manutenção, leasing e interrupções operacionais.
“Isso eleva a conta de combustível, os custos de manutenção e leasing e provoca interrupções operacionais. Estimamos que o impacto financeiro tenha sido de cerca de US$ 11 bilhões no ano passado.”
O executivo também criticou o desempenho dos fabricantes de motores diante dos atrasos nos reparos. “Já passamos do ponto de estar impacientes com eles; perdemos a paciência. Eles precisam concluir os reparos e melhorar seu desempenho.”
Os atrasos na entrega de novas aeronaves também obrigaram companhias aéreas a manter aviões mais antigos em operação. Com isso, a idade média da frota global chegou a 15,2 anos, acima da média histórica de 13,7 anos.
Uma frota mais antiga aumenta a necessidade de manutenção e o consumo de combustível, além de elevar os custos de leasing, segundo o executivo.
CFM56 ainda tem demanda elevada
A pressão não está restrita aos motores mais novos. O CFM56, utilizado pela Avianca e que será atendido pela GE Aerospace no Brasil, continua sendo uma das principais famílias de motores em operação.
Segundo a IATA, havia mais de 23 mil motores CFM56 em operação no fim de 2024. O estudo estima que a família tenha atingido o pico de revisões em oficinas em 2025, com cerca de 2 mil serviços no ano.
O CFM56 equipa uma grande quantidade de aeronaves comerciais de gerações anteriores, incluindo versões do Airbus A320 e do Boeing 737. Mesmo com a renovação das frotas, a quantidade de motores ainda em serviço mantém uma demanda relevante por manutenção e peças.
O cenário ajuda a explicar o volume financeiro movimentado pela manutenção de motores. Dependendo do problema e do tipo de reparo necessário, o serviço de um único motor pode custar milhões de dólares.
Brasil ganha espaço na manutenção de aeronaves
O acordo com a Avianca também reforça a importância do Brasil na manutenção de motores de aeronaves. A unidade Celma, da GE Aerospace, em Petrópolis (RJ), é a principal operação da empresa para esse tipo de serviço na América Latina.
Segundo a companhia, cerca de 25% da manutenção de motores realizada pela GE Aerospace no mundo passa pela operação brasileira. A estrutura conta com cinco unidades nos municípios de Petrópolis, Rio de Janeiro e Três Rios, no estado do Rio de Janeiro.
A GE Aerospace também está ampliando sua capacidade no país. A unidade de Três Rios está sendo expandida para aumentar de cerca de 600 para 1.000 o número de motores que consegue atender por ano.
Para Maíra Madrid, presidente da ABGF, a operação contribui para ampliar a presença internacional de empresas brasileiras e fortalecer a participação do país no setor aeroespacial.
“Manter uma frota confiável e eficiente é fundamental para oferecer a experiência que nossos clientes merecem”, afirmou Felipe Gutierrez, diretor de operações da Avianca. Para ele, o acordo dá à companhia maior flexibilidade para executar seus planos de manutenção e continuar investindo na confiabilidade e no desempenho da operação.
Mahendra Nair, vice-presidente do grupo de vendas comerciais globais da GE Aerospace, afirmou que a estrutura de financiamento representa uma iniciativa inédita com a ABGF e permite à Avianca ter acesso aos serviços de manutenção realizados na unidade brasileira.
