Economia

Aumento de inadimplência nos FIDCs: centenas de fundos estão com taxa de atrasos acima de 10%

Os recentes tremores no mercado de crédito privado começaram a causar rachaduras em um dos veículos de financiamento que mais cresceram nos últimos anos, os FIDCs. São fundos que investem em “direitos creditórios”. São fundos que compram “direitos creditórios”. Imagine uma empresa tem um valor a receber lá na frente – de um cliente grande,...

Por · 19:14 7 min de leitura
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Os recentes tremores no mercado de crédito privado começaram a causar rachaduras em um dos veículos de financiamento que mais cresceram nos últimos anos, os FIDCs.

São fundos que investem em “direitos creditórios”. São fundos que compram “direitos creditórios”. Imagine uma empresa tem um valor a receber lá na frente – de um cliente grande, por exemplo.

Um fundo compra esse direito, pagando hoje um valor menor, e passa a receber o valor cheio no futuro. A empresa ganha caixa na hora; o fundo fica com a diferença – e com o risco de o cliente não pagar.

Para se proteger, os fundos costumam montar colchões. O mais comum é exigir que a própria empresa assuma o prejuízo se o cliente der calote.

Outro é dividir os cotistas ali dentro em camadas: quem fica na base, muitas vezes a própria empresa que vendeu os direitos creditórios. Ela absorve as primeiras perdas, e só depois elas chegam a quem está no topo.

O problema é que esses colchões foram pensados para níveis normais de inadimplência. Quando o cliente não paga e a empresa que deveria cobrir o buraco também está em crise, a proteção acaba.

Aos números. A indústria de FIDCs recentemente superou um patrimônio de R$ 1 trilhão. Pouco mais de um ano antes, em março de 2025, os fundos alcançavam R$ 674 bilhões. Em um ano e meio, portanto, houve um crescimento de 48,4%.

A forte expansão da categoria, porém, ocorre em um momento no qual os bancos restringem, cada vez mais, o crédito para pequenas e médias empresas.

No cenário de fundo, o mercado enfrenta uma onda de recuperações judiciais e extrajudiciais historicamente elevadas e que não dá sinais de melhora.

Muitas empresas têm se deparado com portas fechadas nos bancos e recorrido aos FIDCs para manter o fôlego financeiro. Ou seja, alguns fundos passaram a assumir os riscos que instituições financeiras já não aceitam mais.

A questão é que esse valor “a receber” é só uma promessa. Se o cliente quebra, ou se a própria empresa, em apuros, deixa de honrar a garantia que deu ao fundo, o dinheiro não chega.

É justamente o que está acontecendo. Há um crescimento visível da inadimplência, principalmente, associada às carteiras chamadas de high yield, ou seja, com retornos mais elevados e riscos igualmente altos.

Esses veículos buscam aumentar os rendimentos por meio de crédito a empresas de menor porte. Ou ainda a companhias que estão com acessos mais restritos ao financiamento bancário ou ao mercado de capitais.

O problema: com juros elevados, crédito mais restrito e uma atividade econômica em desaceleração os riscos começam a ficar visíveis em muitas carteiras.

Nos FIDCs multicedentes e multisacados — um formato que reúne múltiplos originadores de crédito e devedores — o “atraso normalizado” subiu para 11,30% em março de 2026 de 9,7% um ano antes, conforme a Uqbar.

O atraso normalizado mede o percentual entre o valor dos créditos vencidos e não pagos e o total de direitos creditórios de um FIDCs. Em suma, se está em 10%, significa que 10% do que o fundo teria a receber está em atraso.

Rachaduras aparentes nos FIDCs

Um levantamento feito pelo InvestNews a partir de informes enviados pelos fundos à CVM mostra que, em agosto, 15% – ou 279 carteiras – de uma amostra de 1.860 Fidcs tinham um nível de inadimplência acima de 10% em relação ao patrimônio líquido.

A pesquisa desconsiderou os FIDCs que investem na compra de carteiras de crédito estressadas ou recebíveis judiciais, como precatórios e ativos originados de processos. Outro critério foi tirar da lista veículos com menos de R$ 20 milhões de patrimônio líquido.

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Existem 54 fundos em que o percentual de inadimplência está acima de 100% do patrimônio líquido.

Parece impossível, mas é uma questão de conta. Mede-se a inadimplência pelo valor cheio dos créditos vencidos e não pagos. Já o patrimônio líquido é o que o fundo vale depois de descontar as perdas que ele já dá como certas.

Quando o calote aperta, o fundo reconhece o prejuízo e o patrimônio encolhe, mas os títulos atrasados continuam entrando pelo valor original. Um fundo com R$ 100 em recebíveis, dos quais R$ 60 estão em atraso, pode ver o patrimônio cair para R$ 30 depois de lançar as perdas. A inadimplência, nesse caso, equivaleria ao dobro do que sobrou no fundo.

Um grupo de 208 FIDCs exibe um percentual de atrasos de pagamentos pelos devedores acima de 30%. Se o corte for a partir de 15%, a lista aumenta para 354.

Exemplos concretos

Alguns casos chamam a atenção, como o do Facio 4, administrado pela QI, no qual o volume de atrasos saiu de R$ 51,7 milhões em fevereiro para R$ 327,5 milhões em agosto. A inadimplência saltou 533% no período e a taxa em relação ao patrimônio subiu de 20,3% para 58,2% seis meses mais tarde.

Outro fundo administrado pela QI, o Artesanal Recebíveis Imobiliários, administrado pela QI, a inadimplência saiu de 17,5%, em fevereiro, para 31% em agosto.

Os atrasos saíram de R$ 187 milhões no início do ano para R$ 399 milhões. A cobertura desses devedores duvidosos alcança 16% do PL de R$ 1,3 bilhão.

O caso do Aldebaran II, administrado pelo J. Safra, mostra um crescimento dos atrasos de R$ 700 mil para R$ 127 milhões em seis meses sem provisão alguma. O patrimônio do fundo alcança R$ 1,46 bilhão. A inadimplência saltou de quase zero no início do ano para 8,7% em agosto.

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O Agro Flex, administrado pelo Daycoval, viu a inadimplência subir de R$ 77 milhões para R$ 192 milhões. O patrimônio, por sua vez, caiu 20%, de R$ 3,04 bilhões para R$ 2,42 bilhões no período. Apesar da alta no volume de pagamentos em atrasos a taxa de inadimplência se mantém em 8% do PL.

O FIDC Opea Agro Sumitomo Chemical teve um encolhimento de patrimônio de 81%. O saldo saiu de R$ 613 milhões para R$ 119 milhões, com R$ 104 milhões inadimplentes. A taxa de inadimplência alcançou 87% em agosto.

Casos EntrePay e Casas Bahia

O trauma mais recente no mundo dos FIDCs ocorreu por conta da liquidação extrajudicial da EntrePay, decretada pelo Banco Central em março deste ano.

A EntrePay era uma adquirente e credenciadora de meios de pagamento, especializada em atender pequenas e médias empresas. Para financiar suas operações de antecipação de recebíveis de cartões, a fintech utilizava FIDCs para captar recursos.

Após a liquidação, vários fundos passaram a enfrentar a interrupção dos fluxos de pagamentos dos recebíveis.

O Garson Card FIDC é o caso mais claro de deterioração de carteira. O fundo tinha a EntrePay como única cedente, ou seja, quem antecipou os recebíveis.

A inadimplência na carteira do Garson Card saiu de R$ 15,2 milhões em dezembro do ano passado para os atuais R$ 106,5 milhões. Depois da liquidação da EntrePay, o fundo suspendeu a compra de novos recebíveis e fechou para resgates.

Outro caso recente está ligado à recuperação judicial da Casas Bahia, ocorrido em 16 de agosto.

A varejista tem aproximadamente R$ 3,95 bilhões ligados a 12 fundos do tipo. Um dos maiores FIDCs da rede de lojas, o IBCB-AF01, com R$ 1,9 bilhão em patrimônio líquido, alcançou 53,7% de inadimplência em agosto, como resultado do próprio pedido de RJ.

Dívidas na esteira

Uma questão central se refere ao destino das captações. A maior parte do dinheiro tem sido usada para refinanciar as dívidas em lugar de investimentos no negócio.

“Muitas companhias seguem concentrando esforços na recomposição de caixa e no equacionamento de passivos acumulados nos últimos anos, o que mantém o ambiente de insolvência corporativa sob pressão”, afirma a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.

Um levantamento da Moody’s mostra que mais de 70% a 80% das emissões recentes no mercado de capitais foram feitas para gestão de passivos.

Em algumas operações, uma pequena parcela fica no caixa. Em outras, todo o dinheiro é usado no pagamento ou na substituição de dívidas anteriores.

A Fitch observa o mesmo movimento. Conforme a agência, grande parte dos recursos captados nos últimos dois anos serviu para refinanciar passivos, alongar vencimentos e reduzir custos. No varejo, empresas diminuíram a expansão e fecharam lojas pouco rentáveis.



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Redação A Notícia 24H.