Kress afirmou ainda que a empresa cresceria a um ritmo ainda maior se não enfrentasse restrições de fornecimento. “Surpreendentemente, estamos vendo aceleração da demanda mesmo na nossa escala”, disse. “As projeções dos clientes apontam para o dobro do nosso crescimento no próximo ano.”
A perspectiva otimista aliviou parte da preocupação de investidores com uma possível bolha na economia da inteligência artificial. A Nvidia, empresa mais valiosa do mundo, é a maior fornecedora de aceleradores de IA, componente essencial para treinar e rodar modelos de inteligência artificial — o que faz de seu balanço trimestral um termômetro para todo o setor.
No relatório do segundo trimestre fiscal, o presidente-executivo da Nvidia, Jensen Huang, já havia dito que a demanda só tem acelerado, destacando o início da produção em larga escala da nova linha de chips da empresa, batizada de Vera Rubin. “A expansão da infraestrutura de IA está a todo vapor”, afirmou. “A Vera Rubin, agora em produção plena, foi criada exatamente para este momento.”
Receita do centro de dados supera projeções
No segundo trimestre fiscal, encerrado em 26 de julho, a receita mais que dobrou na comparação com o mesmo período do ano anterior e somou US$ 96,2 bilhões. O lucro por ação, excluindo itens não recorrentes, foi de US$ 2,22 — também acima da expectativa dos analistas, que projetavam receita de US$ 92,5 bilhões e lucro de US$ 2,09 por ação.
A divisão de data centers, a mais relevante para a empresa, teve receita de US$ 89 bilhões, contra uma média estimada de US$ 85,8 bilhões. Boa parte dessas vendas veio das chamadas hyperscalers, grupo que inclui Amazon e Google, subsidiária da Alphabet. A Nvidia tem buscado diversificar sua carteira de clientes para reduzir a dependência de um grupo pequeno de gigantes de tecnologia.
Apesar dos números positivos, o mercado está cada vez mais exigente com a empresa. A Nvidia já soma 16 trimestres seguidos com receita acima das estimativas de Wall Street, mas isso nem sempre se traduziu em valorização das ações: os investidores passaram a tratar o crescimento acelerado como algo natural, e o papel caiu no dia seguinte à divulgação de resultados em cinco dos últimos seis trimestres.
Escassez de memória e concorrência pressionam o setor
No setor de semicondutores, as únicas empresas com um ritmo de crescimento de receita comparável ao da Nvidia são as fabricantes de chips de memória: Samsung Electronics, SK Hynix e Micron Technology. Treinar e rodar softwares de IA exige um volume enorme de memória de computador, o que tem impulsionado o crescimento dessas empresas, mas também sobrecarregado suas fábricas. Mesmo ampliando a capacidade produtiva, elas não devem conseguir atender à demanda nos próximos anos, o que tem elevado os preços dos chips de memória.
Essa escassez também afeta a Nvidia, já que os módulos de memória são incorporados aos seus próprios chips. A empresa já avisou clientes que vai reajustar os preços de seus produtos para compensar o aumento nos custos.
Ao mesmo tempo, cresce o número de concorrentes de olho no mercado bilionário da Nvidia, e até seus próprios clientes têm desenvolvido chips próprios, o que pode reduzir a dependência deles em relação à empresa no longo prazo. Nesta semana, a OpenAI, criadora do ChatGPT, afirmou que seu novo processador, batizado de Jalapeno, teve desempenho superior à linha atual da Nvidia em testes internos.
Ao longo do último ano, a Nvidia fechou uma série de acordos de investimento com grandes empresas de IA, tanto desenvolvedoras de software quanto provedoras de infraestrutura. Na teoria, esses contratos — que envolvem promessas bilionárias de aporte financeiro — deixam a Nvidia exposta a dezenas de bilhões de dólares em compromissos.
A empresa argumenta que esses acordos vão acelerar a adoção da inteligência artificial e, com isso, gerar ainda mais demanda por seus produtos. Já os críticos veem risco de que esse financiamento cruzado esteja criando uma demanda artificial.
A companhia também segue tentando ampliar o acesso ao maior mercado de semicondutores do mundo, a China. O governo americano já autorizou a venda de parte dos chips de IA da empresa no país, mas Pequim tem restringido as compras e travado o avanço das negociações.
Para a Nvidia e seus investidores, conquistar espaço no mercado chinês é visto tanto como uma fonte de crescimento quanto como uma forma de conter o avanço dos fabricantes locais de chips.
