Os novos passivos estão ligados a contratos com clientes assinados em condições desfavoráveis e a preços abaixo dos valores de mercado. Na prática, representam custos maiores para a Boeing.
Pelas regras contábeis, porém, como foram identificados dentro de um ano após a conclusão da aquisição, o efeito não precisou ser registrado diretamente na demonstração de resultados.
Em vez disso, a companhia ajustou o balanço e elevou o valor do goodwill – o ágio contábil da aquisição. Em 31 de dezembro, a Boeing havia atribuído US$ 10 bilhões ao goodwill da compra. Em 30 de junho, esse montante subiu para US$ 10,3 bilhões, acima do patrimônio líquido total da empresa.
A revisão ocorreu porque o valor justo dos ativos identificáveis da Spirit passou a ser estimado em US$ 1,9 bilhão abaixo do total de seus passivos, ante diferença negativa de US$ 1,6 bilhão no fim de 2025.
A principal mudança foi uma alta de US$ 455 milhões na estimativa de obrigações relativas a determinados contratos com clientes, que passaram a ter valor justo de cerca de US$ 1,5 bilhão.
A Boeing classificou esses acordos como contratos “fora das condições de mercado”, cujos termos diferiam daqueles que poderiam ser obtidos por um participante de mercado.
Em outras palavras, são contratos que consomem recursos e custam mais do que a administração havia estimado inicialmente.
A aquisição da Spirit foi uma tentativa de trazer de volta para dentro de casa parte relevante da cadeia de produção da Boeing. A fabricante havia vendido as fábricas da companhia em 2005, em uma estratégia de terceirização.
A Spirit, porém, tornou-se crítica para a operação: em 2024, cerca de 58% de sua receita veio da Boeing e ela era fornecedora exclusiva de quase todos os produtos vendidos à fabricante.
A pressão para recomprar a empresa ganhou força depois do incidente com um avião da Alaska Airlines, em 2024, quando uma porta se desprendeu durante o voo. A Spirit produziu a fuselagem da aeronave, e uma investigação federal responsabilizou a Boeing pelo episódio.
Em comunicado ao Wall Street Journal, um porta-voz da Boeing disse que a integração das operações comerciais da Spirit “está avançando bem” e é uma parte importante do esforço para reforçar o sistema de produção, a qualidade e a capacidade de elevar o ritmo de fabricação.
A reportagem observa, porém, que os ajustes contábeis indicam que a Boeing não encontrou ganhos financeiros ocultos na aquisição. Após o fim da janela de um ano para revisar a alocação do preço da compra, eventuais novos passivos ou perdas relacionados ao negócio deverão afetar diretamente o resultado da companhia.
