O anúncio provocou reação imediata nas redes sociais. Alguns venezuelanos acusaram Rodríguez de “entregar” o petróleo do país, enquanto outros questionaram a ausência de qualquer menção a uma transição democrática ou a um calendário eleitoral como parte do acordo.
As críticas podem aumentar os riscos políticos para Rodríguez, cuja popularidade já vinha recuando nas pesquisas mais recentes.
A Chevron, única empresa americana que atualmente produz petróleo na Venezuela, não quis comentar. A ExxonMobil também não se manifestou.
“Acima de tudo, é necessário um plano confiável para alcançar uma estabilidade política duradoura e convencer as grandes petroleiras a investir dezenas de bilhões de dólares, especialmente na construção das caras unidades necessárias para processar o petróleo ultrapesado da Venezuela”, afirmou Clay Seigle, pesquisador sênior não residente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

A nova empresa teria concessões de cem anos sobre campos que somam cerca de 65 bilhões de barris em reservas provadas, segundo uma autoridade americana. A companhia seria a segunda maior detentora empresarial de reservas provadas do mundo, atrás apenas da Saudi Aramco, acrescentou.
A Bloomberg News informou na sexta-feira que os EUA buscavam uma participação relevante nas reservas venezuelanas por meio de uma possível parceria entre o Departamento de Defesa e Alejandro Betancourt, controverso investidor do setor de energia que se tornou um importante intermediário entre os dois países.
A produção da nova companhia ajudará a fornecer petróleo a preço de custo, recompor a reserva estratégica dos Estados Unidos e atender às necessidades das Forças Armadas americanas, segundo a autoridade.
Rodríguez confirmou o acordo em um comunicado publicado no Telegram. Ela classificou a operação como “histórica” e afirmou que os projetos petrolíferos gerarão US$ 209 bilhões em impostos.
Segundo a presidente interina, o acordo abrange 17 campos estratégicos com 65 bilhões de barris em reservas provadas. Ela não mencionou, porém, a participação que cada país terá na empresa.
“Isso é totalmente inédito”, afirmou Alejandro Velasco, professor associado da Universidade de Nova York. A Venezuela “corre o risco de se tornar um playground do capitalismo americano”, disse.
O anúncio ocorre em meio a uma corrida mundial para garantir o fornecimento de petróleo, abalado pela guerra no Irã. Trump também enfrenta a preocupação dos eleitores com os preços da gasolina e a inflação antes das eleições legislativas de meio de mandato, em novembro.
Embora a produção venezuelana de petróleo tenha aumentado neste ano, o país extraiu apenas 1,16 milhão de barris por dia em julho, segundo levantamento da Bloomberg. O volume corresponde a menos da metade do registrado dez anos atrás.

A queda reflete a saída anterior de muitas empresas ocidentais do setor de energia, além de anos de falta de investimentos e corrupção, que deixaram a indústria petrolífera venezuelana em ruínas.
A estratégia de Trump está alinhada à chamada “Doutrina Donroe” — um trocadilho com Donald e Monroe —, voltada a ampliar a influência americana em todo o Hemisfério Ocidental.
Desde que as forças dos EUA derrubaram Maduro e Rodríguez assumiu o poder, Trump tem procurado exercer pressão sobre o país e suas vastas riquezas minerais e petrolíferas.
O presidente americano alardeia com frequência que uma parcela significativa do petróleo bruto venezuelano — e das receitas geradas por ele — está fluindo para os Estados Unidos.
O plano também está em sintonia com as medidas adotadas por Trump em seu segundo mandato para intervir diretamente e adquirir participações do governo federal em empreendimentos destinados a fortalecer as cadeias americanas de suprimento de semicondutores, minerais críticos e baterias.
