As propostas de Flávio Bolsonaro foram analisadas em outra reportagem do InvestNews.
1. Contas públicas e arcabouço fiscal
No seu programa, Lula propõe manter a regra atual do arcabouço fiscal e diz que o resultado de melhora das contas virá do crescimento da economia, do controle e da eficiência do gasto, do que chama de “justiça tributária” e do combate ao que aponta como “privilégios e distorções”.
O texto não fixa meta de resultado primário e atribui à regra um esforço fiscal de cerca de 2% do PIB, ou R$ 240 bilhões, entre 2023 e 2026.
Segundo o Tesouro Nacional, o déficit do governo central caiu de 2,1% do PIB em 2023, ano inflado pelo pagamento de precatórios atrasados, para 0,48% em 2025.
As metas de 2024 e 2025, as primeiras sob o novo arcabouço, foram cumpridas porque a regra permite tirar algumas despesas da conta, como parte dos precatórios.
Para o Tribunal de Contas da União (TCU), o resultado de 2025 foi compatível com a regra, mas insuficiente para estabilizar a trajetória de aumento da dívida pública.
Para 2026, a meta é de superávit de 0,25% do PIB, mas o governo projeta déficit de R$ 80,9 bilhões antes das exceções.
A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, segundo o Banco Central. O programa não trata da trajetória da dívida.
Para 2027, primeiro ano do próximo mandato, o governo propôs ao Congresso entregar uma meta de superávit de R$ 73,2 bilhões, ou 0,5% do PIB, no projeto de lei de diretrizes orçamentárias. O texto ainda será votado, e a meta pode ser revista pelo próximo governo, seja qual for o eleito.
Durigan discute com Lula uma proposta para endurecer as regras do arcabouço, com novos gatilhos para conter despesas obrigatórias, segundo a Folha de S.Paulo.
O programa não detalha medidas contra o que seriam tais privilégios, mas, em entrevista ao Broadcast, do Estadão, o ministro citou benefícios de militares e de uma elite do funcionalismo na Previdência e a cobrança de contribuição previdenciária de empresas com muitos trabalhadores contratados como PJ.
2. Infraestrutura e financiamento
O programa aponta o “Novo PAC” como eixo para elevar a taxa de investimento, que ficou em 16,8% do PIB em 2025, ante 16,9% em 2024, segundo o IBGE. Segundo o documento, o Novo PAC prevê R$ 1,3 trilhão até o fim de 2026 – como comparação, o investimento em infraestrutura somou R$ 280 bilhões em 2025.
Para os próximos anos, o petista fala em manter o ritmo das concessões rodoviárias, intensificar as mesmas para ferrovias, prosseguir com os arrendamentos portuários e reforçar os investimentos em aeroportos regionais.
Os resultados até aqui variam por setor.
Em rodovias, o governo fez 13 leilões em 2025, com R$ 135 bilhões em investimentos contratados, segundo a Agência iNFRA.
Em ferrovias, a última concessão nova foi feita em 2021, no governo de Jair Bolsonaro, e da meta de oito leilões em 2026 nenhum edital havia sido publicado até junho, segundo levantamento do Poder360.
3. Indústria e papel do Estado
O programa trata a política industrial como objetivo central do próximo ciclo. Parte da Nova Indústria Brasil (NIB), que, segundo o documento, reúne R$ 860 bilhões em financiamentos entre 2023 e 2026 e aponta como foco dos próximos anos a inovação, a inteligência artificial e os minerais críticos.
Os instrumentos são crédito público, parcerias entre bancos públicos e privados, compras governamentais e incentivos de conteúdo local.
Boa parte desse crédito sai do BNDES. Em maio, o presidente do banco, Aloizio Mercadante, afirmou que 23% da carteira tem algum tipo de subsídio e defendeu o entendimento de que esse crédito não compromete a política monetária.
Os financiamentos chegam a uma indústria em que o juro alto pesa na decisão de trocar máquinas, como mostrou recente reportagem do InvestNews na série Desafios do Brasil. Com a Selic em 13,75% ao ano, o juro real ficava perto de 9,5% em setembro, retorno que o investimento produtivo precisa superar para valer a pena.
Sobre as estatais, o texto não usa a palavra privatização. No caso da Petrobras, aponta a ampliação de investimentos em exploração, a volta à distribuição de combustíveis e a expansão do refino, com regras de conteúdo local para a indústria naval.
As exigências de conteúdo local foram alvo de auditoria do TCU no setor de petróleo e gás. Em julho, o tribunal concluiu que a resolução de 2023 do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) que elevou os índices mínimos em áreas marítimas foi editada sem análise de impacto regulatório, em desacordo com a Lei da Liberdade Econômica.
4. Reforma tributária e impostos
Em relação à agenda fiscal e tributária, o atual presidente defende dar continuidade às medidas já implementadas, destacando a tributação de fundos exclusivos e offshores (no exterior) e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
São medidas que, segundo o documento, elevaram a contribuição de cerca de 140 mil contribuintes de alta renda e aliviaram a carga de mais de 15 milhões de pessoas.
Para um eventual próximo mandato, Lula fala em regulamentar o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional, assegurar tratamento tributário justo às micro e pequenas empresas na implementação da reforma e aplicar o Imposto Seletivo sobre produtos nocivos à saúde.
O texto não detalha as alíquotas do IVA dual (IBS e CBS) nem menciona a criação de novos impostos.
O Comitê Gestor do IBS estimou, em resolução de julho, uma alíquota de referência de 27,91% para o IVA dual, acima do teto de 26,5% previsto na lei complementar da reforma. O número serve para projetar a arrecadação de 2027 e não é a alíquota definitiva.
5. Trabalho e renda
No seu plano de governo, Lula se compromete a manter a atual política do salário mínimo, de reajuste pela inflação mais a variação do PIB de dois anos antes, com ganho real limitado a 2,5% ao ano.
O texto diz ainda que o governo seguirá atuando junto ao Senado pelo fim da escala 6×1 e pela jornada de 40 horas semanais sem redução salarial, nos termos já aprovados pela Câmara dos Deputados.
Na área trabalhista, o plano propõe reduzir o que chama de “pejotização irregular”, com fiscalização e regras que inibam migrações fraudulentas de contratos, e criar um sistema de proteção para trabalhadores de plataformas. Propõe também retomar a assistência sindical nas rescisões e fortalecer a negociação coletiva.
A validade da contratação de trabalhadores como pessoa jurídica está em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF), que ainda não tem data para julgar o caso.
Em junho, o relator, ministro Gilmar Mendes, liberou o andamento das ações na primeira e na segunda instâncias da Justiça do Trabalho, suspensas desde abril de 2025.
Na área social, o programa prevê a continuidade de programas assistenciais, entre eles o Bolsa Família.
Quem comanda a área econômica da campanha
Ministro da Fazenda desde março, Dario Durigan desempenhou um papel central na elaboração do plano econômico para um eventual quarto mandato de Lula.
Ele assumiu o ministério em março no lugar de Fernando Haddad, que deixou o cargo para disputar o governo de São Paulo (a eleição foi definida no primeiro turno com a reeleição de Tarcísio de Freitas).
Formado em direito pela USP, com mestrado pela UnB, Durigan construiu a carreira no setor público. Passou pela Advocacia-Geral da União e pela Casa Civil e foi assessor especial de Haddad na Prefeitura de São Paulo entre 2015 e 2016.
Entre 2020 e 2023, numa passagem pela iniciativa privada, chefiou a área de políticas públicas do WhatsApp no Brasil, empresa da Meta.
Chegou à Fazenda em 2023 como secretário-executivo, no lugar de Gabriel Galípolo, que foi para a diretoria do Banco Central, e participou das negociações para aprovar o novo arcabouço fiscal no Congresso.
Ao lado dele está Bruno Moretti, economista formado pela UFF, que presidia o conselho de administração da Petrobras e assumiu o Planejamento e Orçamento também em março.
