Isso poderia significar um futuro em que o UBS — gigante financeiro do país e importante motor de sua economia — passaria a ser administrado a partir de uma sede distante das ruas de paralelepípedos de Zurique.
Entre as alternativas em discussão estão a compra de uma instituição financeira com sede nos Estados Unidos, seguida da transferência da sede do UBS; uma fusão com um concorrente europeu; ou a venda do próprio banco para uma empresa americana interessada em conquistar sua clientela de alta renda, disseram pessoas familiarizadas com o assunto.
Uma mudança para fora de Zurique reduziria a identidade suíça de um banco que representa a força financeira do país. A identidade cultural da Suíça está ligada a seu papel histórico como um lugar que oferece discrição e abrigo para a riqueza da elite global.
A possível saída do UBS mergulhou a Suíça em mais uma crise existencial sobre o quanto o país deseja que o setor financeiro defina sua identidade econômica.
O governo quer que o UBS mantenha uma quantidade substancial de capital adicional para cobrir suas grandes operações no exterior. Segundo estimativas do banco, a medida custaria cerca de US$ 16 bilhões com base no projeto de lei em tramitação no Parlamento. Pesquisas de opinião no país mostram apoio ao aumento das exigências.
A ministra das Finanças, Karin Keller-Sutter, que lidera a iniciativa de impor as exigências mais elevadas de capital, afirmou que sair custaria mais ao UBS do que permanecer no país e disse não acreditar que o banco deixaria a Suíça.
“O UBS quer ser um banco global, enquanto as pessoas na Suíça gostariam que ele fosse um agente local para pequenos comerciantes e empresas familiares, além de funcionar como um banco de poupança local”, disse Stefan Legge, professor e chefe de políticas tributárias e comerciais da Universidade de St. Gallen. “Estamos assistindo a um jogo de quem pisca primeiro. Quem vai ceder antes?”
A riqueza das famílias suíças, uma das mais elevadas do mundo, é reforçada pela presença de algumas das maiores empresas globais. Grandes companhias nacionais fortalecem a imagem de um país com apenas 9 milhões de habitantes que exerce uma influência muito superior ao seu tamanho.
História do UBS
A história do UBS remonta a 1862. Por um breve período, o banco se tornou o segundo maior do mundo em ativos, quando o Union Bank of Switzerland e o Swiss Bank Corporation se fundiram para formar a instituição moderna, em 1998.
Os parlamentares suíços afirmam que medidas mais rigorosas são necessárias para proteger o país contra um colapso bancário que poderia desencadear uma crise da dívida soberana.
As leis atuais foram elaboradas depois que o UBS precisou de um resgate de mais de US$ 50 bilhões, em consequência de sua exposição a hipotecas americanas de alto risco em 2008. As regras, porém, não foram aplicadas integralmente e se mostraram pouco úteis quando o Credit Suisse caminhava para o colapso, em 2023.
A união dos dois grandes bancos apenas reacendeu os temores de que a Suíça possa ter de realizar novos resgates financeiros. Os US$ 1,7 trilhão em ativos do UBS equivalem a cerca de 150% da produção econômica suíça. Para comparação, os ativos do maior banco americano representam aproximadamente 15% do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos.
Enquanto o UBS e o governo travavam uma disputa pública sobre a legislação nos últimos meses, o banco recebeu sondagens de possíveis parceiros americanos sobre eventuais negócios, segundo algumas das pessoas ouvidas. Elas ressaltaram, porém, que o UBS não está em negociações ativas e não tomou nenhuma medida formal para concretizar um acordo.
Não há garantias de que o UBS seguirá adiante com qualquer negócio. Algumas pessoas sugeriram que o banco pode estar adotando uma postura de confronto em uma última tentativa de convencer os parlamentares a modificar seus planos. O projeto ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento, o que é esperado para os próximos meses.
O banco também pode simplesmente decidir permanecer no país. Pela proposta atual, teria sete anos para implementar gradualmente as exigências mais elevadas de capital.
Dois acionistas externos do UBS, a Cevian Capital e a Artisan Partners, estão pressionando pela mudança.
Mesmo que transfira sua sede, o UBS poderá manter suas operações domésticas na Suíça ou, potencialmente, separar essa divisão e distribuir suas ações aos atuais acionistas ou vendê-las a investidores externos.
O banco não divulga o tamanho total de seus negócios na Suíça, mas afirmou em materiais usados no lobby contra a proposta que concede cerca de US$ 417 bilhões em empréstimos a empresas e famílias suíças e gera aproximadamente um terço de sua receita no país.
Colm Kelleher, ex-presidente do Morgan Stanley que preside o conselho de administração do UBS desde 2022, está cada vez mais favorável a explorar um acordo, segundo algumas das pessoas familiarizadas com o assunto.
Quando assumiu o cargo, sua missão era ampliar a presença do UBS nos Estados Unidos e aumentar o valor do banco aos olhos dos investidores do setor financeiro.
Partida de pôquer
Uma das pessoas comparou a estratégia de Kelleher a uma partida de pôquer em que o jogador adota uma postura firme diante das autoridades suíças, em vez de simplesmente blefar.
Uma eventual mudança seria difícil de aceitar para o presidente-executivo do banco, Sergio Ermotti. Cidadão suíço, ele retornou ao UBS em 2023 para conduzir a instituição durante a compra emergencial do concorrente Credit Suisse. Na época, afirmou que aceitar o cargo em meio à crise era uma questão de dever nacional.
O presidente-executivo do UBS, Sergio Ermotti, já afirmou que deseja continuar administrando o banco global a partir da Suíça.
Diante da determinação do governo de aumentar as exigências de capital do banco, porém, Ermotti suavizou sua posição sobre a importância de manter um grande banco suíço, disseram as pessoas ouvidas.
Os dois executivos afirmaram que desejam continuar administrando um UBS global a partir da Suíça, mas reconheceram que pode chegar um momento em que isso não seja mais possível. Uma pessoa familiarizada com o pensamento do banco afirmou que o presidente do conselho e o presidente-executivo estão totalmente alinhados sobre o assunto.
As especulações sobre um possível negócio envolvendo o UBS se intensificaram. Entre os potenciais parceiros citados por analistas estão o Morgan Stanley e bancos regionais americanos.
Em 2019, o The Wall Street Journal informou que o UBS e o Deutsche Bank haviam explorado possibilidades de combinar suas operações.
Qualquer acordo provavelmente teria de ampliar a base de clientes americanos de alta renda ou oferecer novas maneiras de alcançá-los, disseram pessoas próximas ao UBS.
As ações do UBS acumulam alta neste ano, mas tiveram desempenho inferior ao de seus pares internacionais, fator que investidores atribuem à discussão sobre as exigências de capital.
O banco tem valor de mercado de aproximadamente US$ 155 bilhões, abaixo dos concorrentes americanos Morgan Stanley, avaliado em US$ 280 bilhões, e Goldman Sachs, com cerca de US$ 260 bilhões.
Gestão de fortunas
Nos Estados Unidos, o UBS é mais conhecido por sua área de gestão de fortunas, que inclui a antiga rede de assessores financeiros da PaineWebber, e por seu banco de investimento. Essa divisão está entre as dez maiores do setor e negocia ações, além de assessorar empresas em operações com ações e títulos de dívida.
O UBS se apresenta como o banco dos bilionários e atende centenas de milhares de milionários americanos. É a maior gestora de fortunas da Ásia e tem presença relevante no Oriente Médio e em outros mercados de riqueza em expansão.
Analistas alertam, porém, que o UBS precisa considerar como a regulação bancária americana poderá evoluir ao longo do tempo.“Empresas são como plantas”, disse Legge, o professor. “Você pode tirá-las de um lugar e plantá-las em outro, mas será que elas vão crescer lá?”
Traduzido do inglês por InvestNews
