Economia

Um gigante bancário suíço considera o impensável: deixar a Suíça

Executivos do UBS, o último grande banco global com sede na Suíça, estão se preparando para uma mudança que até pouco tempo parecia inimaginável: abandonar sua base no país. Funcionários do banco e seus assessores estão elaborando planos de contingência caso os parlamentares suíços avancem com exigências mais rigorosas de capital previstas nas leis do...

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Executivos do UBS, o último grande banco global com sede na Suíça, estão se preparando para uma mudança que até pouco tempo parecia inimaginável: abandonar sua base no país.

Funcionários do banco e seus assessores estão elaborando planos de contingência caso os parlamentares suíços avancem com exigências mais rigorosas de capital previstas nas leis do país para instituições financeiras grandes demais para quebrar. As medidas são uma resposta ao resgate do Credit Suisse pelo UBS, há três anos, segundo pessoas familiarizadas com os esforços do banco.

Isso poderia significar um futuro em que o UBS — gigante financeiro do país e importante motor de sua economia — passaria a ser administrado a partir de uma sede distante das ruas de paralelepípedos de Zurique.

Entre as alternativas em discussão estão a compra de uma instituição financeira com sede nos Estados Unidos, seguida da transferência da sede do UBS; uma fusão com um concorrente europeu; ou a venda do próprio banco para uma empresa americana interessada em conquistar sua clientela de alta renda, disseram pessoas familiarizadas com o assunto.

Uma mudança para fora de Zurique reduziria a identidade suíça de um banco que representa a força financeira do país. A identidade cultural da Suíça está ligada a seu papel histórico como um lugar que oferece discrição e abrigo para a riqueza da elite global.

A possível saída do UBS mergulhou a Suíça em mais uma crise existencial sobre o quanto o país deseja que o setor financeiro defina sua identidade econômica.

O governo quer que o UBS mantenha uma quantidade substancial de capital adicional para cobrir suas grandes operações no exterior. Segundo estimativas do banco, a medida custaria cerca de US$ 16 bilhões com base no projeto de lei em tramitação no Parlamento. Pesquisas de opinião no país mostram apoio ao aumento das exigências.

A ministra das Finanças, Karin Keller-Sutter, que lidera a iniciativa de impor as exigências mais elevadas de capital, afirmou que sair custaria mais ao UBS do que permanecer no país e disse não acreditar que o banco deixaria a Suíça.

“O UBS quer ser um banco global, enquanto as pessoas na Suíça gostariam que ele fosse um agente local para pequenos comerciantes e empresas familiares, além de funcionar como um banco de poupança local”, disse Stefan Legge, professor e chefe de políticas tributárias e comerciais da Universidade de St. Gallen. “Estamos assistindo a um jogo de quem pisca primeiro. Quem vai ceder antes?”

A riqueza das famílias suíças, uma das mais elevadas do mundo, é reforçada pela presença de algumas das maiores empresas globais. Grandes companhias nacionais fortalecem a imagem de um país com apenas 9 milhões de habitantes que exerce uma influência muito superior ao seu tamanho.

História do UBS

A história do UBS remonta a 1862. Por um breve período, o banco se tornou o segundo maior do mundo em ativos, quando o Union Bank of Switzerland e o Swiss Bank Corporation se fundiram para formar a instituição moderna, em 1998.

Os parlamentares suíços afirmam que medidas mais rigorosas são necessárias para proteger o país contra um colapso bancário que poderia desencadear uma crise da dívida soberana.

As leis atuais foram elaboradas depois que o UBS precisou de um resgate de mais de US$ 50 bilhões, em consequência de sua exposição a hipotecas americanas de alto risco em 2008. As regras, porém, não foram aplicadas integralmente e se mostraram pouco úteis quando o Credit Suisse caminhava para o colapso, em 2023.

A união dos dois grandes bancos apenas reacendeu os temores de que a Suíça possa ter de realizar novos resgates financeiros. Os US$ 1,7 trilhão em ativos do UBS equivalem a cerca de 150% da produção econômica suíça. Para comparação, os ativos do maior banco americano representam aproximadamente 15% do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos.

Enquanto o UBS e o governo travavam uma disputa pública sobre a legislação nos últimos meses, o banco recebeu sondagens de possíveis parceiros americanos sobre eventuais negócios, segundo algumas das pessoas ouvidas. Elas ressaltaram, porém, que o UBS não está em negociações ativas e não tomou nenhuma medida formal para concretizar um acordo.

Não há garantias de que o UBS seguirá adiante com qualquer negócio. Algumas pessoas sugeriram que o banco pode estar adotando uma postura de confronto em uma última tentativa de convencer os parlamentares a modificar seus planos. O projeto ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento, o que é esperado para os próximos meses.

O banco também pode simplesmente decidir permanecer no país. Pela proposta atual, teria sete anos para implementar gradualmente as exigências mais elevadas de capital.

Dois acionistas externos do UBS, a Cevian Capital e a Artisan Partners, estão pressionando pela mudança.

Mesmo que transfira sua sede, o UBS poderá manter suas operações domésticas na Suíça ou, potencialmente, separar essa divisão e distribuir suas ações aos atuais acionistas ou vendê-las a investidores externos.

O banco não divulga o tamanho total de seus negócios na Suíça, mas afirmou em materiais usados no lobby contra a proposta que concede cerca de US$ 417 bilhões em empréstimos a empresas e famílias suíças e gera aproximadamente um terço de sua receita no país.

Colm Kelleher, ex-presidente do Morgan Stanley que preside o conselho de administração do UBS desde 2022, está cada vez mais favorável a explorar um acordo, segundo algumas das pessoas familiarizadas com o assunto.

Quando assumiu o cargo, sua missão era ampliar a presença do UBS nos Estados Unidos e aumentar o valor do banco aos olhos dos investidores do setor financeiro.

Partida de pôquer

Uma das pessoas comparou a estratégia de Kelleher a uma partida de pôquer em que o jogador adota uma postura firme diante das autoridades suíças, em vez de simplesmente blefar.

Uma eventual mudança seria difícil de aceitar para o presidente-executivo do banco, Sergio Ermotti. Cidadão suíço, ele retornou ao UBS em 2023 para conduzir a instituição durante a compra emergencial do concorrente Credit Suisse. Na época, afirmou que aceitar o cargo em meio à crise era uma questão de dever nacional.

O presidente-executivo do UBS, Sergio Ermotti, já afirmou que deseja continuar administrando o banco global a partir da Suíça.

Diante da determinação do governo de aumentar as exigências de capital do banco, porém, Ermotti suavizou sua posição sobre a importância de manter um grande banco suíço, disseram as pessoas ouvidas.

Os dois executivos afirmaram que desejam continuar administrando um UBS global a partir da Suíça, mas reconheceram que pode chegar um momento em que isso não seja mais possível. Uma pessoa familiarizada com o pensamento do banco afirmou que o presidente do conselho e o presidente-executivo estão totalmente alinhados sobre o assunto.

As especulações sobre um possível negócio envolvendo o UBS se intensificaram. Entre os potenciais parceiros citados por analistas estão o Morgan Stanley e bancos regionais americanos.

Em 2019, o The Wall Street Journal informou que o UBS e o Deutsche Bank haviam explorado possibilidades de combinar suas operações.

Qualquer acordo provavelmente teria de ampliar a base de clientes americanos de alta renda ou oferecer novas maneiras de alcançá-los, disseram pessoas próximas ao UBS.

As ações do UBS acumulam alta neste ano, mas tiveram desempenho inferior ao de seus pares internacionais, fator que investidores atribuem à discussão sobre as exigências de capital.

O banco tem valor de mercado de aproximadamente US$ 155 bilhões, abaixo dos concorrentes americanos Morgan Stanley, avaliado em US$ 280 bilhões, e Goldman Sachs, com cerca de US$ 260 bilhões.

Gestão de fortunas

Nos Estados Unidos, o UBS é mais conhecido por sua área de gestão de fortunas, que inclui a antiga rede de assessores financeiros da PaineWebber, e por seu banco de investimento. Essa divisão está entre as dez maiores do setor e negocia ações, além de assessorar empresas em operações com ações e títulos de dívida.

O UBS se apresenta como o banco dos bilionários e atende centenas de milhares de milionários americanos. É a maior gestora de fortunas da Ásia e tem presença relevante no Oriente Médio e em outros mercados de riqueza em expansão.

Analistas alertam, porém, que o UBS precisa considerar como a regulação bancária americana poderá evoluir ao longo do tempo.“Empresas são como plantas”, disse Legge, o professor. “Você pode tirá-las de um lugar e plantá-las em outro, mas será que elas vão crescer lá?”

Traduzido do inglês por InvestNews



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