Economia

Shein cai 10% no primeiro dia na bolsa e enfrenta fim do forte crescimento

As ações da Shein estrearam no mercado em um momento desconfortável: os anos de maior crescimento da varejista de moda fast-fashion ficaram para trás, justamente quando tarifas, pressão regulatória e concorrência mais intensa tornam sua próxima fase mais difícil. As ações chegaram a cair 10% no início da estreia em Hong Kong nesta terça-feira, em...

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As ações da Shein estrearam no mercado em um momento desconfortável: os anos de maior crescimento da varejista de moda fast-fashion ficaram para trás, justamente quando tarifas, pressão regulatória e concorrência mais intensa tornam sua próxima fase mais difícil.

As ações chegaram a cair 10% no início da estreia em Hong Kong nesta terça-feira, em uma recepção fraca à oferta pública inicial (IPO) de US$ 1,7 bilhão, que encerrou uma tentativa de anos de abrir o capital.

Os papéis fecharam a HK$ 48,50, praticamente estáveis em relação ao preço do IPO, de HK$ 48,56. A operação avaliou a Shein em uma fração de seu pico de valuation no mercado privado, mas os investidores ainda questionaram se as perspectivas de crescimento da empresa justificavam o preço. O ceticismo ficou mais evidente logo após a abertura, quando as ordens de venda superaram as de compra em três vezes no início das negociações.

O desafio é que a Shein chega ao mercado acionário depois da expansão explosiva durante a pandemia de Covid-19, que transformou a empresa em uma potência global da moda ultrarrápida.

Agora, a companhia enfrenta barreiras comerciais maiores após o fim da isenção americana de minimis e uma concorrência mais acirrada, enquanto consumidores mais cautelosos representam outro obstáculo. Ao mesmo tempo, os investidores têm concentrado cada vez mais seu apetite — e os prêmios de valuation — em empresas ligadas a inteligência artificial e robótica.

“A queda sem brilho na abertura do IPO não tem tanto a ver com a execução da Shein, mas com o momento infeliz, já que a empresa foi afetada tanto pelas tarifas elevadas quanto pelo fim da brecha do de minimis”, disse Jeremy Tan, CEO da Tiger Fund Management. “Os investidores continuam relativamente mais otimistas com os segmentos de IA e robótica, como mostram as fortes estreias recentes de IPOs.”

A queda da Shein na abertura resumiu a perda de apetite dos investidores por varejistas de internet, um setor que tem enfrentado dificuldades recentes diante dos efeitos da inflação, das interrupções comerciais e da cautela dos consumidores em mercados importantes, incluindo a China.

A recepção fraca refletiu preocupações com a concorrência crescente, a incerteza regulatória e um mercado cada vez menos disposto a conceder prêmios de valuation a empresas que estão fora do tema de inteligência artificial.

A empresa levantou HK$ 13,6 bilhões (US$ 1,7 bilhão) na oferta, o que conferiu à Shein um valor de mercado de pouco mais de US$ 26 bilhões, muito abaixo do valuation de US$ 100 bilhões que chegou a alcançar. Ainda assim, a companhia está entre as maiores empresas de vestuário e moda listadas em bolsa do mundo. A concorrente sueca Hennes & Mauritz AB, dona da H&M, é avaliada em cerca de US$ 30 bilhões.

“Eles já tentaram abrir o capital várias vezes, então, a esta altura, com investidores e funcionários impacientes, provavelmente não têm o luxo de escolher o momento”, disse Vey-Sern Ling, diretor-gerente da Union Bancaire Privee.

“O crescimento está desacelerando e os prejuízos aumentando em meio à forte concorrência tanto de empresas de comércio eletrônico quanto de moda ultrarrápida. Mais importante, seu modelo de negócios continua sendo afetado pela evolução das regulamentações internacionais.”

Desde o pico de seu valuation, a empresa enfrentou desafios crescentes, incluindo tarifas mais altas, maior escrutínio regulatório e concorrência cada vez mais intensa da Temu, da PDD Holdings, e da AliExpress, do Alibaba Group Holding.

O IPO avaliou a empresa em mais de 15 vezes o lucro projetado, segundo cálculos baseados em estimativas da Bloomberg Intelligence. O múltiplo é aproximadamente o dobro dos 7,4 vezes atribuídos à PDD e superior aos 10,7 vezes do índice de referência Hang Seng, de Hong Kong.

A oferta de ações da Shein também coincidiu com mudanças significativas em seus negócios, que resultaram em uma forte desaceleração do crescimento e na entrada da empresa no vermelho. Um ponto de inflexão importante foi a decisão dos Estados Unidos, no ano passado, de encerrar uma regra que permitia que encomendas de até US$ 800 entrassem no país sem o pagamento de tarifas de importação. Conhecida como regra de minimis, a isenção beneficiava empresas como a Shein, que enviam diretamente aos consumidores produtos de baixo valor.

A União Europeia seguiu o mesmo caminho em julho, eliminando sua própria isenção e criando uma tarifa de € 3 para produtos de valor igual ou inferior a € 150 (US$ 175), em uma medida destinada a conter o avanço das importações de mercadorias baratas.

O novo cenário contrasta fortemente com o período da pandemia, quando o comércio eletrônico foi impulsionado pela demanda de consumidores confinados em casa, levando as vendas da Shein a dispararem 250% em 2020.

A expansão desacelerou à medida que a empresa cresceu e a euforia da era da Covid perdeu força. A Shein registrou prejuízo de US$ 99 milhões nos três primeiros meses de 2026, ante lucro de US$ 395 milhões no mesmo período do ano anterior.

O lucro já vinha caindo em 2025, enquanto a receita líquida cresceu 8% no ano passado — abaixo da meta da companhia e muito aquém do avanço de 21% registrado em 2024.

“Modelos de negócios com margens extremamente baixas, como o da moda barata e ultrarrápida, tendem a ser particularmente vulneráveis a atritos comerciais transfronteiriços, incluindo tarifas, restrições de oferta e aumento das tensões geopolíticas”, disse Gerald Gan, diretor de investimentos da Reed Capital Partners.

“Os valuations elevados daquela época foram parcialmente impulsionados pelo aumento do consumo online durante a pandemia. Na minha visão, essa foi uma vantagem temporária e em grande parte impulsionada pelo sentimento, e não um prêmio estrutural de crescimento sustentável.”

Em 2022, a Shein era vista como uma forte força de disrupção no setor global de moda ultrarrápida, com valuation de aproximadamente US$ 100 bilhões, definido em “um mundo muito diferente”, no fim da pandemia e quando as brechas do de minimis ainda estavam abertas, segundo Achim Berg, fundador da FashionSights, consultoria sediada na Alemanha, e ex-chefe global da área de vestuário e luxo da McKinsey & Co.

Muita coisa mudou desde então. As tentativas da Shein de abrir o capital em Nova York e Londres não avançaram. Seu antigo modelo de negócios está ficando mais difícil de executar diante da desaceleração do crescimento das vendas, da deterioração da rentabilidade e do aumento da regulamentação sobre as importações baratas de comércio eletrônico que ajudaram a impulsionar sua ascensão.

“A melhor oportunidade provavelmente teria sido antes de o de minimis realmente ganhar força, mas eles perderam essa janela”, disse Sucharita Kodali, analista da Forrester Research, em entrevista à Bloomberg TV.

A nova estratégia da empresa, voltada à aquisição de marcas e a parcerias, também traz suas próprias complicações. A Shein comprou a marca americana de roupas Everlane por US$ 80 milhões em maio, dando à companhia uma marca já estabelecida para testar sua capacidade na cadeia de suprimentos. Mas os Estados Unidos já estão analisando a aquisição por questões de segurança nacional.

“A verdadeira questão é saber se a extraordinária ascensão da Shein, que saiu praticamente do zero para US$ 42 bilhões em receita e passou a figurar entre as cinco maiores empresas de moda do mundo em receita, pode se transformar em crescimento lucrativo no futuro”, disse Berg.



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