Economia

Na contramão da lógica, ouro sobe com juro americano em alta – veja como investir

O comportamento do ouro quebrou, entre agosto e o início de setembro, uma escrita que sempre prevaleceu. Em vez de o preço do metal cair quando os juros de longo prazo americanos passaram a subir rumo aos maiores níveis em 19 anos, a cotação sobe – desde o início de agosto, são 8% a US$...

Por · 14:35 5 min de leitura
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O comportamento do ouro quebrou, entre agosto e o início de setembro, uma escrita que sempre prevaleceu.

Em vez de o preço do metal cair quando os juros de longo prazo americanos passaram a subir rumo aos maiores níveis em 19 anos, a cotação sobe – desde o início de agosto, são 8% a US$ 4.425 a onça (31g).

Não é o natural. Com os títulos públicos americanos de 10 anos pagando quase 5%, e os de 30 anos acima de 5% (o que não se via desde 2007) , o normal é que dinheiro investido em outros ativos fluam para o porto seguro dos Treasuries.

Inclusive o ouro, que não paga juros.

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O que está acontecendo, então?

Há mais de um fator – e vamos ver adiante. Mas o grande agente que puxa a cotação do ouro são as compras dos Bancos Centrais. Foram 289 toneladas só no 2º trimestre de 2026. O volume é cinco vezes superior às 57 toneladas dos três primeiros meses do ano e 62% maior na comparação anual.

Por trás das compras está um movimento global que não é de hoje: a substituição de dólares por ouro nas reservas dos Bancos Centrais – inclusive no Brasil, que aumentou em 33% o volume de ouro em suas reservas desde 2024 – para 172 toneladas.

Substituição parcial. Só que mais do que suficiente para fazer preço . E porque substituir? Em grande parte, porque a dívida pública dos EUA é a maior desde a Segunda Guerra mundial (125% do PIB).

Quando isso acontece, aumenta o temor de que, em algum momento, o governo acabe emitindo moeda para aliviar a dívida – caso o faça, cria-se inflação. A moeda desvaloriza; e as reservas deixam de fazer sentido.

O ouro não tem esse problema. Ninguém tem o poder de “emitir” ouro. A força dele está na escassez.

Tem mais. As compras dos BCs elevam o preço. E o que acontece com ativos que sobem de preço? Investidores correm para eles. O preço sobe mais ainda.

Essas compras tinham perdido fôlego. Mas agora veio uma retomada firme, que cria um suporte para as cotações que o mercado não tinha no início do ano, reforça Mauriciano Cavalcante, especialista da corretora Ourominas.

O Goldman Sachs projeta a cotação do ouro em US$ 4,9 mil no fim de 2026 – o que daria ao metal um potencial de alta de 12% em dólar. “Ainda que sujeita a uma volatilidade maior e de mão dupla ao longo da trajetória”, acrescentam os analistas.

Vale notar que esse não é o auge do ouro. O boom mesmo foi entre 2025 e o começo deste ano, quando o ouro alcançou a máxima histórica de US$ 5,6 mil e acumulou uma valorização de 46% no ano.

Ou seja: queda de 21% desde lá. Ouro é renda variável, com todos os riscos de renda variável. Recomenda-se não ter mais de 3% da carteira investidos no metal amarelo.

A boa notícia, de qualquer forma, é que nunca foi tão simples investir em ouro.

ETFs facilitam acesso

A mais indicada é via ETFS – os fundos negociados em bolsa, que você compra e vende como se fossem ações.

No caso do ouro, há vários ETFs no Brasil que seguem o Índice Futuro de Ouro B3 (Ifgold B3).

Como acontece com quase toda commodity, o mercado futuro, com preços combinados para fechar o negócio numa data específica, é maior que o mercado à vista. Daí a existência desse índice, que acompanha os contratos futuros de ouro mais negociados na bolsa brasileira. Em agosto o Ifgold B3 apresentou um ganho de 10,11%.

Entre os ETFs que o acompanham, então o GLDI11, da Itaú Asset, e o GOLB11, do BTG Pactual, replicam o Ifgold B3.

O cardápio, de qualquer forma, varia bem. O OURO11, da XP Vista Asset, busca replicar o desempenho do ETF internacional IAU (iShares Gold Trust), indexado ao preço do ouro à vista.

Sempre vale lembrar: como a cotação do ouro é em dólar, você fica exposto ao câmbio. Uma eventual queda do dólar pode minar seu investimento, mesmo que a cotação do ouro suba.

Stablecoins de ouro

Outra possibilidade é usar stablecoins de ouro. São criptomoedas com lastro em ouro físico, que fica guardado em cofres de custodiantes terceirizados.

Cada unidade dessas stablecoins representa uma onça troy, a unidade fora do sistema métrico que o mercado adota, e que dá 31 gramas.

E as duas principais stablecoins de ouro do mercado são a PAX Gold (PAXG) e a Tether Gold (XAUT). Elas dominam 88,2% do mercado.

O ambiente clássico de negociação desses ativos são as corretoras de criptoativos (Mercado Bitcoin, Mynt, Foxbit etc.). Mas bancos tradicionais têm.

Intervenções dos EUA

De volta ao mundo macro. A escalada recente do ouro tem ainda apoio do comportamento intervencionista do Tesouro dos EUA, chefiado por Scott Bessent, o equivalente americano a Ministro da Fazenda.

Bessent realizou em momentos distintos em agosto duas intervenções. A primeira foi uma grande compra de ienes no mercado para evitar uma queda (ainda) maior da moeda japonesa.

O suporte foi dado para evitar que o país asiático tivesse, ele mesmo de fazer isso. Se fizesse, teria de tenha de recorrer a uma venda de reservas, ou seja, de Treasuries. Esse movimento poderia desvalorizar o dólar.

E mais recentemente, Bessent duplicou a recompra de títulos de longo prazo do Tesouro americano para US$ 4 bilhões. O movimento foi lido como uma tentativa de segurar a subida das taxas das Treasuries de 10 e 30 anos.

A perspectiva de um ciclo de intervenções constantes no mercado alimentou a demanda por ativos de proteção, como o ouro e até bitcoin e outras criptomoedas, conforme Christian Mueller-Glissmann, analista do Goldman Sachs.



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Redação A Notícia 24H.