Política

Lula terá de escolher entre duas gerações para formar o seu novo ministério

Lula completa 81 anos nesta terça-feira (27/10), dois dias depois de conquistar o quarto mandato com 64.256.232 votos. Na mesma eleição, os dois deputados federais mais votados do PT no país foram Ana Elisa, de 21 anos, com 524.219 votos em Minas Gerais e Luna Zarattini, de 32, com 233.733 em São Paulo. Parte da...

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Lula completa 81 anos nesta terça-feira (27/10), dois dias depois de conquistar o quarto mandato com 64.256.232 votos. Na mesma eleição, os dois deputados federais mais votados do PT no país foram Ana Elisa, de 21 anos, com 524.219 votos em Minas Gerais e Luna Zarattini, de 32, com 233.733 em São Paulo.

Parte da cúpula petista fez o caminho inverso. Fernando Haddad deixou o Ministério da Fazenda em 20 de março para disputar o governo paulista e viu Tarcísio de Freitas ser reeleito no primeiro turno, com 62,65% dos válidos. Gleisi Hoffmann trocou a Secretaria de Relações Institucionais pela disputa ao Senado no Paraná, onde as duas vagas ficaram com Filipe Barros (PL) e Deltan Dallagnol (Novo).

O ministério que Lula começará a nomear em 5 de janeiro será o ponto de encontro dessas trajetórias. Uma geração saiu da urna com votos e, no mínimo, quatro anos de mandato. A outra saiu com experiência de décadas de governo e, a partir de 1º de fevereiro, sem cargo eletivo.

A disputa opõe duas gerações que fizeram militância política e alcançaram resultados eleitorais por caminhos muito diferentes.

Mandato é orçamento; ministério é concessão

Haddad e Gleisi abrem uma lista extensa. José Dirceu, José Guimarães, Paulo Paim, Paulo Pimenta, Randolfe Rodrigues, Benedita da Silva, Erika Kokay, Helder Salomão e Fabiano Contarato também ficarão fora do Congresso que toma posse em fevereiro. Entre os aliados de fora do núcleo petista, Guilherme Boulos, Simone Tebet, Marina Silva, João Campos e Renan Calheiros estão na mesma condição.

Ficar sem mandato custa mais hoje do que custava há uma década. Desde a Emenda Constitucional 86, de 2015, as emendas individuais têm execução obrigatória e cada parlamentar dirige recursos à sua base sem pedir licença ao Executivo. Somam-se a isso estrutura de gabinete, tribuna e presença assegurada em toda negociação até 2031. O ministro não tem nenhuma dessas garantias: o artigo 84 da Constituição permite ao presidente nomeá-lo e exonerá-lo a qualquer momento.

Para os quinze nomes da lista, a manutenção de sua influência política a partir de fevereiro de 2027 passa a depender quase que exclusivamente de nomeação presidencial para compor a nova estrutura governamental.

João Campos mostra que a fronteira não é só etária. Aos 32 anos, renunciou à prefeitura do Recife, disputou o governo de Pernambuco, recebeu 2.360.469 votos e não foi eleito. Pela certidão de nascimento, pertence à nova geração. Pela posição institucional, entra em 2027 no grupo que depende de Lula.

Cada ministério do centro sai da cota do PT

O tamanho da mesa é definido antes de qualquer nomeação. Segundo a Metapolítica, o governo contará com apoio consistente de 124 deputados e 16 senadores. Outros 246 deputados e 31 senadores formam um apoio condicionado, negociado votação a votação, e a direita, unida, soma 260 cadeiras na Câmara, três acima da maioria absoluta.

Para aprovar uma lei complementar, o Planalto precisa atrair 133 deputados e 25 senadores dessa faixa intermediária. No presidencialismo de coalizão, em que o presidente troca espaço no governo por votos no Congresso, o ministério é a moeda mais estável. O terceiro mandato documenta o padrão: dos 16 ministros exonerados na última semana do prazo de desincompatibilização, em abril, cinco vinham de PSD, PP, Republicanos e MDB, entre eles os titulares de Agricultura, Transportes e Cidades.

A cota do PT é o que fica depois que a coalizão é paga. A disputa entre gerações acontece dentro desse remanescente.

Quem mais precisa do cargo é quem menos pode retaliar

Na cota petista, dois critérios disputam cada vaga. Um é a dependência: o quadro sem mandato precisa do cargo para continuar no jogo e, se for preterido, não dispõe de instrumento de reação, porque não vota em plenário, não indica emendas e não ocupa tribuna. O outro é a capacidade de pressão, que está do lado oposto. O deputado recém-eleito não precisa de ministério agora, mas tem voto, orçamento próprio e audiência.

Essa audiência já foi usada para pressionar a cúpula. Em 6 de outubro, dois dias depois do primeiro turno, Pedro Rousseff, 26 anos, eleito com 118.567 votos em Minas, declarou que “a política tradicional morreu” e que, sem mudança de postura na campanha, o PT “vai perder mesmo”.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encerramento da plenária com parlamentares, em Brasília – DF. Foto: Ricardo Stuckert

André Janones leva o argumento ao limite. O canal Exército do Lula, que ele opera no WhatsApp, tinha 4,2 milhões de seguidores em 13 de outubro e chegou a 10 milhões no dia 23, dois dias antes da votação. Nas urnas, Janones foi reeleito com 78.780 votos e é o único deputado da Rede na Câmara. Quanto da virada se deve ao canal? Não podemos verificar isso no momento. Verificável é a natureza do ativo: o canal pertence a quem o opera, não ao partido nem ao governo.

A lógica clássica de coalizão recompensa lealdade com cargo e funciona com a geração histórica. Com a nova, encontra um limite. Lula pode até nomear um conjunto de veteranos, mas isso inviabilizará o amadurecimento institucional de uma juventude promissora do campo progressista.

Os votos da nova geração já elegem veteranos

O sistema proporcional amplia esse limite. Os votos de cada candidato somam para a federação, que conquista cadeiras pelo quociente eleitoral, o total de votos válidos dividido pelo número de vagas. Com 4,57% dos válidos em um estado que elege 53 deputados, Ana Elisa reuniu sozinha mais de dois quocientes. O excedente entrou na conta que elegeu outros 12 nomes da federação PT, PCdoB e PV em Minas, entre eles veteranos como Reginaldo Lopes, Rogério Correia e Padre João.

A troca aparece também no agregado. Levantamento do jornal Correio, com dados do TSE mostra, que a idade média da bancada petista caiu de 55,2 para 52,6 anos, a primeira redução em 28 anos. Ainda assim, é a terceira mais velha da Câmara, atrás de PCdoB e PDT. Em fevereiro, em discurso a petistas, Lula descreveu o mecanismo que retarda a renovação: “No PT, a gente fala muito em igualdade, mas está cheio de companheiro deputado que não quer que saia outro deputado”.

Em 2030, sem Lula na urna, o PT perderá o principal motor de votos de sua chapa. A bancada dependerá de puxadores, e os dois maiores do partido somaram 757.952 votos neste ano; à direita, Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato somaram 6.157.756. Como a janela partidária de 2030 permitirá que deputados troquem de legenda sem perder o mandato, a lealdade desses puxadores terá de ser conquistada.

A sucessão de 2030 começa no gabinete presidencial de 2027

Lula não poderá disputar 2030 e deixará o Planalto aos 85 anos. A eleição está marcada para 6 de outubro daquele ano e ministros que quiserem concorrer terão de sair até 6 de abril, seis meses antes, como fizeram Haddad e Gleisi. O gabinete de janeiro de 2027 terá, assim, três anos e três meses de vida útil como vitrine eleitoral.

O precedente foi criado por Lula. Em 2010, sua sucessora saiu da Casa Civil para disputar a Presidência sem jamais ter concorrido a uma eleição. No modelo petista, ministério central é escola de candidato.

O duelo entre as gerações se resolve com uma troca de lugares. A nova geração precisa ocupar espaço no governo agora, porque experiência de gestão não se adquire nas redes. Ana Elisa, Pedro Rousseff e Luna Zarattini terão 25, 30 e 36 anos em 2030. Se passarem pelo Executivo neste mandato, entrarão na próxima década com uma credencial que hoje só a geração histórica tem: já ter governado.

Para a geração histórica, a contrapartida é deixar a Esplanada e aplicar o capital político acumulado onde ele será fundamental: na condução do partido, na formação de quadros, nas eleições municipais de 2028 e na disputa pelos governos estaduais e pelas 27 vagas do Senado em 2030. O PT venceu seis das sete eleições presidenciais desde 2002 com nomes dessa mesma geração. O sucesso partidário permitiu adiar a renovação por 24 anos. Para 2030, sem Lula na urna, os quadros precisam ser construídos e amadurecidos a partir de agora.





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Redação A Notícia 24H.