É dessa produção que vem, desde 2025, todo o tomate usado no ketchup Heinz vendido no país. Até então, mesmo depois de começar a produzir e envasar o produto no Brasil, em 2013, a empresa precisava importar parte da pasta da Califórnia.
O tomate cultivado para a indústria tem menos água, o que permite obter mais pasta por volume colhido. Produzida em Goiás, ela também abastece molhos e extratos das marcas Heinz e Quero, adquirida pela companhia em 2011. No futuro, a operação poderá atender outros mercados da América Latina.
Depois de dobrar de tamanho entre 2020 e 2025, a Kraft Heinz quer repetir o avanço até 2030, sem novas aquisições. Para isso, terá de conquistar consumidores em categorias nas quais a força da marca ainda não se traduziu em liderança.
A principal delas é a maionese, território dominado pela Hellmann’s, da Unilever, outra gigante global em alimentos com a qual concorre.
Batalha da maionese
A Kraft Heinz concentra sua expansão no mercado de molhos, condimentos e temperos, chamado internamente de Taste Elevation. Segundo a companhia, esse conjunto movimenta cerca de US$ 5 bilhões no Brasil. Maionese e extrato de tomate representam uma oportunidade de R$ 2,2 bilhões em vendas adicionais para a empresa.
A maionese é a maior dessas frentes. Com R$ 5 bilhões em vendas em 2025, segundo a Nielsen, a categoria tem aproximadamente o dobro do tamanho do mercado de ketchup. A Hellmann’s detém 63% das vendas e cresceu 15,9% no período, acima da expansão de 13,5% do mercado.
Para avançar, a Heinz precisou entender por que sua presença era limitada mesmo com uma marca conhecida pelo consumidor. A resposta estava, em parte, na embalagem – e no uso que se faz dela.
Segundo Grunkraut, as bisnagas representam cerca de 20% do mercado de maionese. São usadas para acompanhar lanches, batatas e outros alimentos. Nesse formato, diz o executivo, a Heinz já lidera.
Os outros 80% estão associados ao preparo de receitas, como salpicão e salada de batata, com maior presença de potes e sachês grandes. Era justamente o segmento em que faltavam produtos da marca.

A companhia passou a preencher essas lacunas e desenvolveu uma fórmula voltada à culinária, pensada para funcionar tanto em pratos frios quanto em preparações que vão ao forno. Segundo Grunkraut, a participação da Heinz no mercado de maionese passou de 18% para 22%.
A estratégia também prevê usar as diferentes marcas do portfólio para alcançar consumidores de faixas de preço distintas, com a Heinz à frente da expansão.
Ambição enfrenta concorrência
“O nosso sonho de 2030 vai ter que passar por assumir a liderança no Brasil”, diz o executivo sobre a categoria.
O raciocínio se repete no extrato de tomate. A Heinz lançou o produto em sachê e estuda entrar no tradicional pote pequeno, que pode ser reaproveitado pelo consumidor.
Na conta do executivo, alcançar a liderança em maionese e extrato, preservando a posição nas outras quatro categorias em que a companhia diz liderar, seria suficiente para cumprir a meta de crescimento.
A disputa, porém, acontece em via de mão dupla. Enquanto a Heinz tenta entrar em mais receitas, a Unilever amplia sua presença no ketchup com a Hellmann’s. A marca lançou uma versão zero açúcar numa categoria que cresceu 10,4% em valor e 5,5% em volume em 2025.
A dona da Hellmann’s também prepara uma mudança que pode ampliar sua capacidade de competição. A Unilever acertou combinar seu negócio de alimentos com a americana McCormick, fabricante de temperos, mostardas e molhos que ainda não opera no Brasil.
A conclusão é esperada para meados de 2027, sujeita a aprovações regulatórias e dos acionistas. A estrutura de marcas e distribuição da Unilever poderá abrir caminho para a McCormick no país, acrescentando concorrência às categorias nas quais a Kraft Heinz pretende crescer.
Brasil na conta global
A ambição brasileira ganha importância num momento de retração da Kraft Heinz global.
No segundo trimestre de 2026, as vendas líquidas caíram 1,4%, para US$ 6,26 bilhões. O lucro operacional ajustado recuou 18,4%, para US$ 1,04 bilhão, pressionado por gastos com publicidade, fabricação e logística, além de queda nos volumes e piora no mix de produtos.
Nos mercados emergentes, no entanto, as vendas líquidas cresceram 10,4%. O Brasil integra esse grupo, mas seus resultados não são divulgados separadamente.
Segundo Grunkraut, o desempenho dos emergentes ainda tem peso insuficiente para compensar as dificuldades na América do Norte. A ambição é elevar a participação desse grupo de cerca de 15% para 30% do negócio global. O Brasil é sua maior operação.
“Se os mercados emergentes têm o papel de ser o motor de crescimento da companhia, o Brasil tem o papel de ser o motor de crescimento dos emergentes”, afirma.
Para cumprir essa tarefa, a operação precisa ampliar o portfólio sem afastar um consumidor com orçamento apertado.
Grunkraut diz que a companhia vem substituindo ingredientes artificiais e retirando aditivos, mas que o interesse por essas mudanças nem sempre se traduz em disposição para pagar mais.
“É só botar um monte de coisa legal, subir o preço e achar que o consumidor vai pagar? Não, não vai. O bolso do consumidor está apertado, ele está endividado”, diz.
A resposta, segundo o executivo, está nos ganhos de produtividade. A Kraft Heinz investiu R$ 1 bilhão no Brasil nos últimos cinco anos em capacidade produtiva, tecnologia e modernização. A automação ajuda a absorver os custos das mudanças nos produtos e a abrir espaço para competir em preço.
Grunkraut afirma que a maionese da companhia ficou mais barata para o consumidor nos últimos anos, sem redução de qualidade. Para uma marca que quer sair do acompanhamento do lanche e entrar nas receitas de maior volume, essa equação é decisiva.
Os investimentos seguem, diz ele, apesar da dificuldade de prever câmbio, juros e custos de matérias-primas.
“Eu preciso investir em uma nova linha. Não posso ficar esperando o melhor momento. Tem que fazer? Vamos fazer”, afirma.
A produção local de tomate, aquela no interior de Goiás, dá mais previsibilidade ao abastecimento. Nas gôndolas, o avanço dependerá de fazer potes, sachês e novas fórmulas ganharem lugar no carrinho — e nas receitas de quem hoje compra da concorrência.

