Mas engavetar o projeto também teria um custo elevado, deixando a CMPC atrás da também chilena e concorrente Arauco, que está nas etapas finais da construção de uma fábrica ainda maior no Brasil.
O investimento faz parte de uma onda de nova capacidade que acelera a migração do setor de celulose para as vastas plantações de eucalipto de baixo custo do Brasil. Se a CMPC ficar de fora dessa expansão, corre o risco de perder espaço em um setor cada vez mais dominado pelos maiores produtores e pelos de menor custo.
“A CMPC praticamente precisa fazer isso porque há uma corrida para se tornar uma das gigantes da celulose e ela não pode ficar para trás”, afirmou Josefina Valdivia, chefe de pesquisa de renda fixa da Credicorp Capital. “Se eles não fizerem, alguém fará.”
As ações da empresa controlada pela família bilionária Matte acumulam queda de 30% neste ano, o segundo pior desempenho do índice de referência da bolsa chilena. Os spreads sobre os Treasuries dos Estados Unidos dos títulos da CMPC com vencimento em 2034 atingiram máxima histórica no fim de setembro, e os rendimentos subiram mais de 160 pontos-base neste ano.
Mais atrasos
A CMPC mencionou pela primeira vez planos de expansão no Brasil em abril de 2021. Três anos mais tarde, apresentou o Natureza como um projeto que acrescentaria 2,5 milhões de toneladas métricas por ano à capacidade de produção de celulose de eucalipto. A empresa forneceu mais detalhes sobre o projeto e o financiamento durante encontro com investidores em dezembro de 2025.
“O Natureza tem vantagens competitivas significativas dadas as características da região, incluindo acesso a florestas altamente produtivas e custos competitivos”, afirmou a empresa em resposta a perguntas na semana passada. “Esses fatores colocam o projeto entre os mais competitivos do mundo e dão a ele resiliência para atravessar diferentes ciclos de preços e gerar valor no longo prazo.”
Em março, porém, a CMPC disse a analistas durante a teleconferência de resultados que adiaria a decisão final para o fim do ano. A empresa afirma agora que aguarda licenças e que o avanço do projeto dependerá dessas aprovações, das condições de mercado e de considerações financeiras.
Em meio aos atrasos, o cenário ameaça ficar mais desafiador. Os preços da celulose sofrem pressão persistente com o aumento da produção na China e a entrada de nova capacidade na América do Sul, segundo Horacio Herrera, analista de ações da MBI Inversiones. Ao mesmo tempo, custos mais altos de financiamento, energia e construção tornaram o Natureza menos atraente.
Herrera estima que o Natureza precise de um preço de longo prazo da celulose de cerca de US$ 575 por tonelada para gerar um retorno aceitável, pouco abaixo do nível atual.
“É um retorno aceitável considerando o custo de capital, mas não é motivo para abrir champanhe”, afirmou Herrera. Abaixo de aproximadamente US$ 575, “é melhor não fazer o projeto”.
Planos de financiamento
O Bradesco rebaixou no mês passado a recomendação para as ações da CMPC para desempenho abaixo do mercado, citando a queda do lucro líquido ao longo de vários anos, a alavancagem elevada e o aumento dos riscos relacionados ao projeto no Brasil. O Banco Itaú manteve em setembro a recomendação de desempenho abaixo do mercado.
A CMPC planeja vender entre US$ 1 bilhão e US$ 1,5 bilhão em ativos não essenciais e, há duas semanas, fechou acordo para vender o negócio chileno de embalagens de papelão ondulado por US$ 420 milhões. Junto com cerca de US$ 300 milhões em títulos híbridos emitidos em junho, a operação representa o primeiro avanço substancial de um plano de financiamento que os investidores aguardavam.
Ainda assim, a MBI estima que a CMPC possa precisar de outros US$ 600 milhões a US$ 700 milhões em novo capital caso consiga levantar apenas metade do valor previsto com a venda de ativos. Essa possibilidade tornou-se uma grande fonte de preocupação para os acionistas.
E “mesmo com aumento de capital e venda de ativos, há incerteza sobre se conseguirão evitar” a perda do grau de investimento, afirmou Valdivia.
A dívida em dólares da CMPC tem atualmente classificação BBB- pela Standard & Poor’s, um nível acima da categoria especulativa e com perspectiva negativa. Na Fitch, a classificação é a mesma, mas com perspectiva estável. A dívida líquida correspondia a 5,1 vezes o Ebitda no fim do ano passado, ante 3,6 vezes um ano antes, segundo dados compilados pela Bloomberg.
Manter a classificação de grau de investimento é uma consideração fundamental em todas as decisões de investimento da CMPC, afirmou a empresa.
Risco de ficar para trás
Para os investidores da CMPC, o que está em jogo fica evidente com o avanço de um projeto semelhante de uma grande concorrente. A Arauco aprovou a construção da fábrica Sucuriú em 2024, mesmo ano em que a CMPC anunciou detalhes dos planos para o Natureza.
As obras da Sucuriú estão mais de 70% concluídas, e o início das operações está previsto para o fim de 2027. A fábrica produzirá até 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano, o que fará da Arauco a segunda maior produtora de celulose do mundo.
Outros produtores com operações no Brasil também estão em expansão. O setor aposta que a produção de celulose de custo mais elevado no Hemisfério Norte diminuirá ao longo do tempo, o que concentrará uma parcela maior da oferta no Brasil e, em menor grau, no Chile.
“Eles querem garantir a parte deles no setor que existirá daqui a dez anos”, afirmou Valdivia. “Não é como se pudessem dizer: ‘Vamos esperar mais três anos’, porque alguém virá e fará isso.”
