Segundo Leme, a MSP Estúdios observa saúde financeira, qualidade, certificações, distribuição e inovação dos licenciados.
Em um mercado brasileiro que movimentou R$ 29,16 bilhões em vendas no varejo de produtos licenciados em 2025, segundo estimativa da Abral (Associação Brasileira de Licenciamento de Marcas e Personagens), disputar espaço passa por combinar alcance comercial, controle de marca e presença em diferentes categorias de consumo.
O critério da MSP Estúdios é considerado rígido porque o consumidor tende a enxergar o personagem antes do fabricante. A associação imediata costuma ser com a marca estampada no produto.
“O consumidor associa qualidade e credibilidade à empresa do personagem que está comprando. Muitas vezes, nem sabe quem é a fábrica por trás daquele produto. Por isso, o critério precisa ser muito grande.”
Leme afirma que a companhia procura empresas relevantes, com distribuição ampla e alcance além do Sudeste.
A diretriz busca parceiros com distribuição mais pulverizada, para que os produtos cheguem a regiões com menos acesso ao portfólio. Também entram na conta criatividade e inovação para alcançar novos públicos.
Dos alimentos à moda
O portfólio licenciado da MSP Estúdios se espalha por categorias diferentes de consumo. Mais que uma lista de produtos, a variedade explica a lógica da empresa.
Alimentos e itens de uso cotidiano mantêm os personagens em contato recorrente com o consumidor. Um caso simbólico é o do extrato de tomate Elefante, da Cargill, associado ao Jotalhão há mais de 60 anos.
Já brinquedos, papelaria e festas reforçam a presença no universo infantil. Moda, eventos e colaborações aproximam a Turma da Mônica de diferentes gerações.
Um exemplo recente dessa diversificação é a parceria com a NFL, ampliada em setembro. A colaboração levou os personagens da Turma da Mônica, combinando elementos dos quadrinhos com a identidade visual de equipes liga americana de futebol americano.
Conteúdo: papel estratégico
Para a MSP Estúdios, o produto licenciado começa antes da prateleira. A companhia tenta manter a Turma da Mônica no cotidiano por meio de quadrinhos, audiovisual, redes sociais, streaming e eventos. Os números são superlativos:
- 34 bilhões de visualizações no YouTube;
- 48,8 milhões de seguidores somados em YouTube, Instagram, Facebook, TikTok e X;
- mais de 1 milhão de downloads do Monicaverso;
- 1.500 páginas editoriais produzidas por mês.
A lógica da MSP Estúdios é que o personagem precisa chegar antes do produto. A exposição multimídia cria contato recorrente com as IPs e favorece a venda de itens com a marca.
“Uma marca não sobrevive só de desenvolver um style guide e bater na porta de uma indústria dizendo: ‘tenho esse portfólio para oferecer’, por mais força que tenha a marca”, afirma Leme.
Para a executiva, a sustentação comercial depende de narrativa. “A gente não consegue ter sustentação de produto se não tem conteúdo, se não tem um storytelling para contar.”
O desafio de falar com a Geração Z
O autodiagnóstico da MSP Estúdios é: a empresa vê força entre a Geração Alpha e os millennials, hoje pais de crianças dessa geração. O desafio é se aproximar da Gen Z usando a linguagem desse público.
Leme descreve a disputa como uma briga por atenção. A Geração Z convive com franquias globais, influenciadores, youtubers e estímulos digitais. Para a diretora, isso exige formatos disruptivos e fiéis aos personagens.
Um exemplo é a aproximação com moda, eventos e experiências fora do circuito infantil tradicional. Leme cita o desfile no São Paulo Fashion Week (veja mais abaixo), com colaborações com Piticas e Mercado Livre e ativações em grandes eventos para colocar os personagens diante de públicos mais jovens e adultos.
O recorte brasileiro do Ipsos Global Trends 2024, divulgado no Ipsos Talks 2025, ajuda a dimensionar como redes sociais atravessam hábitos de consumo entre gerações.
Para a MSP Estúdios, esse ambiente explica por que linguagem, formato e presença digital viraram estratégia de licenciamento, e não apenas vitrine.
“A gente tem que se reinventar porque as gerações se reinventam”, diz Leme.
Da prateleira ao evento
Para chegar à Geração Z, Leme diz que a MSP Estúdios usa iniciativas fora do circuito infantil tradicional e parcerias para apresentar os personagens em outra linguagem.
Ligado a esse movimento, o Café do Chico Bento abriu no último dia 12, em São Paulo, usando o personagem para além da nostalgia.
Inspirado no universo do personagem, o café funciona como uma frente entre marca e consumidor: não depende só da venda de um item com o rosto do Chico Bento mas de uma experiência em torno da IP.
Na moda, a mesma lógica aparece no São Paulo Fashion Week. Nesta semana que passou, a MSP Estúdios participou do evento com desfile do estilista Dario Mittmann.
Com 35 looks, a passarela serviu como vitrine para peças originais criadas para o desfile, diferentes das que serão vendidas ao público. Depois, ficarão disponíveis peças assinadas pela MSP Estúdios e pelo estilista Dario Mittmann, além de produtos ligados aos parceiros da ação.
A venda ao público ficará concentrada em camisetas da Piticas, nos quiosques e no e-commerce da marca, e em peças no Mercado Livre assinadas pela MSP Estúdios e pelo estilista.
Na leitura da MSP Estúdios, esse tipo de colaboração, desde que preserve a identidade dos quadrinhos, leva a Turma da Mônica para um repertório próximo de públicos jovens e adultos.
De janeiro a junho de 2026, a frente presencial reuniu 1,7 milhão de participantes em experiências da MSP Estúdios, incluindo parques, exposições, eventos, shows e encontros com personagens.
Exposições e ativações também entram nessa conta. A exposição Viva Mauricio teve mais de 800 mil visitantes, segundo a empresa. Mais de 100 shoppings recebem experiências, com cerca de 400 mil visitantes por ano, que também entram nos esforços de exposição.
Levar os personagens a cafés, passarelas, shoppings e exposições amplia as ocasiões de consumo para os licenciados e prolonga o contato do público com as IPs. É a mesma engrenagem em outro ambiente: conteúdo cria vínculo, experiência reforça a marca e produto transforma personagem em consumo.
“A Mônica vai ser sempre a Mônica, o Cebolinha sempre vai falar errado. A gente não pode perder esse DNA, mas precisa estar perto do público, falando a linguagem dele.”
