Com E2 entregue à Latam, Embraer acirra concorrência com Airbus e Boeing pelas aéreas do país
Até agora, o E2 da Embraer voava no Brasil com as cores de uma única grande companhia: a Azul. A entrega do primeiro jato à Latam nesta quinta-feira (8) amplia o espaço da fabricante nas frotas do país – e a Gol pode ser a próxima a adotar a aeronave fabricada no país. Para a...
Até agora, o E2 da Embraer voava no Brasil com as cores de uma única grande companhia: a Azul. A entrega do primeiro jato à Latam nesta quinta-feira (8) amplia o espaço da fabricante nas frotas do país – e a Gol pode ser a próxima a adotar a aeronave fabricada no país.
Para a Embraer, o avanço significa disputar uma fatia maior de um mercado dominado por Airbus e Boeing. A aposta é transformar a entrada em grandes grupos aéreos em mais escala e melhores retornos para a aviação comercial, que ainda busca melhorar a remuneração dos investimentos feitos no E2.
A Latam encomendou 24 aeronaves e tem opções para outras 50, em um acordo anunciado em setembro de 2025. A companhia prevê receber 12 aviões neste ano e outros 12 em 2027. Os voos com passageiros começam em novembro.
A Abra, controladora da Gol e da Avianca, também anunciou em julho um acordo para comprar 20 E195-E2, além de opções e direitos de compra que podem elevar o total a 45. As entregas devem começar no quarto trimestre de 2027, abrindo caminho para que os jatos cheguem à Gol.
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O reencontro com a Latam vem de longe. A TAM, que deu origem à operação brasileira do grupo, voou com o Bandeirante nos anos 1970. Mais tarde, uma tentativa de levar os E-Jets da primeira geração à companhia não avançou. “Agora as rotas convergem”, disse Francisco Gomes Neto, CEO da Embraer, no evento de entrega realizado em São José dos Campos (SP).
Para o executivo, a escolha da Latam dá mais relevância ao E2 no mercado global. A presença numa companhia desse porte ajuda a demonstrar que o avião pode integrar a estratégia de grandes redes, abrindo destinos e aumentando frequências.
A família E2 já acumula mais de 500 pedidos firmes desde o lançamento. A Embraer também vê espaço para avançar em mercados como México, Colômbia e Argentina, onde a operação da Latam pode servir de referência para outras companhias.
Novas rotas, mais passageiros
Na Latam, o E195-E2 terá 136 assentos e complementará a frota de Airbus usada nos voos domésticos. O objetivo é atender mercados com menos passageiros e aumentar frequências em rotas existentes, ajustando a oferta ao tamanho da demanda.
Essa é uma das vantagens que a Embraer tenta vender às grandes aéreas: um avião menor pode tornar viáveis voos que seriam mais difíceis de preencher com aeronaves maiores. Para a Latam, há ainda a possibilidade de levar passageiros de novas cidades aos seus principais aeroportos de conexão e, dali, ao restante da malha.
Entre novembro de 2026 e março de 2027, a companhia prevê incorporar até 14 E195-E2 à operação. Na primeira fase, os aviões serão usados em 42 rotas, incluindo oito novas ligações e quatro destinos inéditos: Cabo Frio (RJ), Ji-Paraná (RO), Macaé (RJ) e Rondonópolis (MT).
A malha doméstica passará dos atuais 63 para 67 destinos. Para 2027, a Latam estuda a viabilidade de até 18 novos destinos com o modelo. “Nós escolhemos bases que já tinham, na nossa previsão, uma demanda potencial grande, principalmente uma demanda corporativa”, afirmou Jerome Cadier, CEO da Latam Brasil.
Incorporar uma nova família de aviões exige treinamento de tripulações, preparação da manutenção e certificação. Segundo Cadier, a decisão dependia do momento e da segurança financeira da companhia para assumir essa expansão.
A conta da escala
Para a Embraer, ampliar a produção pode diluir custos de estrutura e abrir caminho para melhorar margens. Mas o retorno depende também das condições dos contratos e da capacidade de entregar os aviões.
A XP projeta que as entregas da aviação comercial avancem gradualmente para cerca de 110 aeronaves por ano até 2030. Para 2026, a meta da Embraer é de 80 a 85 unidades, incluindo o E2 e o E175 da primeira geração.
No cenário da corretora, a receita total da fabricante, incluindo as demais divisões, passaria de US$ 8,5 bilhões neste ano para US$ 13,4 bilhões em 2030. A aviação comercial ganharia rentabilidade com escala e com o encerramento gradual de contratos antigos. A XP ressalta, porém, que a divisão ainda gera retornos baixos sobre os investimentos no E2.
Francisco Gomes Neto, CEO da Embraer, e Jerome Cadier, CEO da Latam (Divulgação)
A cadeia de fornecedores continua sendo um obstáculo. Segundo Gomes Neto, o fornecimento de peças está mais próximo da normalização, mas ainda há faltas.
A Embraer tem revisto a negociação com fornecedores e a organização da produção para acelerar a fabricação. Na aviação comercial, o tempo de fabricação caiu 28% nos últimos anos.
A Latam amplia a base de clientes e a visibilidade do E2. O próximo passo será transformar essa presença em novas encomendas, entregas regulares e margens melhores. A primeira aeronave inaugura uma operação que pode crescer: outras 50 dependem de a companhia exercer suas opções de compra.