Política

Camisa de força e maus-tratos: brasileiros vão à Justiça contra ICE

No final da semana passada, Daniel Fernandes Alves finalmente respirou aliviado. Depois de meses em uma prisão nos EUA esperando para ser deportado, ele finalmente foi colocado num avião em direção ao Brasil. A primeira parada seria a Colômbia, onde parte dos passageiros foi deixado pelo ICE. Mas quando o voo foi reiniciado, desta vez...

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No final da semana passada, Daniel Fernandes Alves finalmente respirou aliviado. Depois de meses em uma prisão nos EUA esperando para ser deportado, ele finalmente foi colocado num avião em direção ao Brasil. A primeira parada seria a Colômbia, onde parte dos passageiros foi deixado pelo ICE.

Mas quando o voo foi reiniciado, desta vez para Belo Horizonte, o brasileiro de 64 anos pediu para ir ao banheiro. Por conta de remédios controlados para diabete e pressão que Daniel estava tomando, a necessidade era real. Mas seu pedido foi negado e lhe foi sugerido que urinasse nas calças. A tensão subiu, com a discussão entre os passageiros e os agentes de segurança no avião que, instantes antes, tinham autorizado outro deportado e ir ao banheiro.

Desesperado e ainda algemado, o brasileiro insinuou que poderia urinar onde estava mesmo. O agente deu uma empurrão e, como resposta, Daniel retrucou com outro empurrão. O segurança caiu sobre os bancos do avião. Imediatamente, o deportado foi imobilizado por três seguranças, que o atiraram no chão do avião. “Colocaram o joelho no meu pescoço e na minha cabeça”, contou.

Em seguida, os agentes do ICE colocaram uma camisa de força no brasileiro, enquanto uma médica que acompanhava o voo alertava que ele precisava de fato ir ao banheiro e que, por sua condição de saúde, não poderia ficar preso daquela forma. De nada adiantou.

Foi apenas uma hora e meia depois que ele seria autorizado a ficar apenas de algemas. A tensão no voo ainda levou os demais passageiros a permanecerem presos, apesar do acordo entre os EUA e o Brasil de que, sobrevoando o território nacional, ninguém deveria ser algemado. O temor dos agentes do ICE era de que os brasileiros se rebelassem diante do tratamento de Daniel.

Ao pousar em Belo Horizonte, o brasileiro foi o primeiro a ser retirado do avião e entregue para a Polícia Federal. Num informe, o ICE acusava Daniel de “atentado ao pudor” e “agressão”. As autoridades nacionais, porém, rejeitaram qualquer ação e liberaram o brasileiro.

O episódio foi apenas o último capítulo de mais de um ano de sofrimento e humilhações por parte do brasileiro de Minas Gerais. Em entrevista ao ICL Notícias, Daniel conta que está organizando com outros brasileiros uma ação para denunciar o governo Trump e o ICE por maus-tratos. A denúncia será apresentada por advogados nos tribunais nos EUA e já envolve pelo menos seis casos de maus-tratos. Orientado por advogados, Daniel fará um exame de corpo delito para incluir os dados em sua queixa.

Há pouco mais de um mês, na fila para o refeitório da prisão onde o brasileiro estava, os agentes do ICE empurraram um dos detentos que, por sua vez, caiu sobre Daniel. O brasileiro se chocou com grades e os hematomas se espalharam pelo corpo.

Os casos de humilhação foram constantes aos longo do meses.

Daniel vivia há mais de vinte anos na região de Orlando, Flórida. Durante esse período, teria mantido residência, atividade profissional e obrigações tributárias no país, além de possuir autorização de trabalho e habilitação para dirigir. Sua empresa de construção chegou a empregar 14 pessoas, inclusive americanos.

Assim como tem ocorrido com milhares de imigrantes, o brasileiro tentava regularizar sua situação quando, numa das audiências regulares com as autoridades, em 4 de junho de 2025, foi preso.  Por um processo kafkiano, o que era para ser apenas um período curto de prisão antes de ser deportado ao Brasil se transformou numa saga sem fim.

Por ter iniciado vários processos desde 2020 para regularizar sua situação e apresentado recursos nos tribunais ao longo dos últimos anos, Daniel teria de renunciar a tudo isso para que pudesse ser deportado. Desesperado, ele abriu mão de tudo e pediu para ser enviado ao Brasil. Mas a burocracia, a lentidão do sistema de Justiça americano e o acúmulo de estrangeiros levaram o brasileiro a ser esquecido.

Ele primeiro foi levado para uma prisão na região de Orlando. Depois, para Folkston ICE Processing Center, também identificado como D. Ray James, no estado da Geórgia. O local é alvo de sérias denúncias de violações de direitos humanos e foi apelidado como “Devil’s Center”, ou simplesmente o Centro do Diabo.

Agente da Polícia de Imigração americana (Foto: Reprodução)

Doente e fraco, ele explicou como era a prisão. “Não tem higiene, não tem água potável para tomar”, insistiu.

Para Daniel, ele e os demais estrangeiros em sua cela viviam como “lixo” e “criminosos”. “Dormimos em um beliche de metal, com um colchaozinho”, relatou. Para ele, o problema maior era a sujeira e o ar condicionado que mantém o quarto permanentemente em cerca de 14 graus Celsius.

Ele descreve que sentiu falta de ar e muita tosse. “Há muita gente doente dentro dos quartos. Como se tivessem o coronavirus”, disse. Quando pedia remédio, o atendimento podia levar até uma semana para ser atendido.

No local para cerca de 70 pessoas, existem apenas três sanitários e quatro pias. “Tomamos a mesma água do banheiro. Para não nos contaminar, fervemos a água no microonda. No banheiro, se pisar, pega fungos no pé. E somos obrigados a limpar o quarto. Se não fizermos isso, eles nos retiram tudo, televisão, telefone. Éramos ameaçados 24 horas por dia”, disse.

Daniel reclama da comida, uma queixa recorrente entre os detentos em dezenas de centros mantidos pelo governo. De acordo com as normas do ICE para serviços de alimentação, os detidos devem receber três refeições diárias — sendo duas delas quentes — e não pode haver um intervalo superior a 14 horas entre a refeição noturna e o café da manhã.

O problema é que o Congresso destinou recursos ao ICE para a detenção de até 41.500 pessoas. Mas, no início de julho, o ICE mantinha mais de 57.000 detidos em suas instalações por todo o país, segundo dados da própria agência.

O resultado tem sido contaminação em alimentos e uma redução brutal na qualidade do que é servido. Segundo o brasileiro que tem pré-diabete e colesterol elevado, aquela comida apenas piorou sua a situação.

Mas é a depressão que assusta. Por conta do barulho no quarto com tantas pessoas, Daniel só conseguia dormir quando já é madrugada. Mas os policiais acordam todos muito cedo. “Da muita tristeza ser tratado como um animal num país de primeiro mundo. Nem animal se trata assim”, disse.

Daniel não conseguia descansar nem mesmo quando dorme. “Eu tinha muito pesadelo. Já acordei gritando pela noite, pensando que havia alguém tentando me matar”, contou.  Isso se agravou depois que ele presenciou um ato de violência de um policial contra um estrangeiro, em uma das prisões. O rapaz sofreu uma lesão craniana e acabou morrendo no hospital. “Testemunhei várias brigas. Não se dorme tranquilo”, afirmou o brasileiro.

Seu relato é de um local que é o espelho de uma política marcada pelo supremacismo branco. Ali, estão os indesejados do planeta. “São venezuelanos, africanos, haitianos, de Honduras, Guatemala, México, China e tantos outros”, disse.

Questionado sobre o que aqueles estrangeiros falam sobre o governo Trump, Daniel não deixa dúvidas do sentimento de indignação que reina na prisão. Mas admite que muitos se iludiram com as promessas do presidente de que iria deportar apenas criminosos.

“Foi falado que ele iria acabar com as pessoas que estavam cometendo crimes. Até muitos imigrantes e brasileiros concordaram. Havia muita baderna. Assaltaram minha casa que eu estava construindo. Até eu concordada em retirar os criminosos. Mas o governo saiu do controle. Mataram pessoas inocentes e até americanos. O governo está descontrolado. Vai ser um governo muito odiado pelo mundo”, constatou.





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Redação A Notícia 24H.