Contudo, uma troca de comando no Palácio do Planalto não significaria uma guinada radical nos rumos das commodities. Mas, basicamente, reabriria uma porta que permanece fechada desde a volta de Trump aop poder.
O Brasil já vinha buscando ampliar o comércio com os EUA enquanto diversificava suas parcerias internacionais — um movimento que ganhou tração à medida que a China, seu principal parceiro comercial, adotou medidas para proteger determinados setores da sua indústria doméstica.
Sob o governo Lula, o aguardado acordo comercial entre Mercosul e União Europeia finalmente saiu do papel, enquanto seguem em andamento as negociações com países como Canadá, Japão e Emirados Árabes Unidos.
Na mesma linha, Flávio Bolsonaro prometeu abrir novos mercados para os produtos nacionais, embora sinalize maior disposição em estreitar o alinhamento com Washington. Durante a campanha, o candidato afirmou estar aberto a fechar acordos comerciais com os EUA, citando a Argentina de Javier Milei como referência.
“A campanha de Flávio tem enfatizado o estreitamento de laços com os EUA, uma abordagem pragmática em relação à China e uma postura pró-mercado no comércio internacional”, avaliaram analistas do Citigroup liderados por Gabriel Barra, em relatório distribuído após o primeiro turno.
Aço e etanol
Essa linha de atuação pode impor limites a medidas protecionistas destinadas a blindar a indústria nacional contra importações, aponta o Citi, destacando o setor siderúrgico como um dos mais expostos.
Siderúrgicas brasileiras vêm pressionando o governo a reativar um acordo de 2018 que permitia ao país exportar aço para os EUA livre de tarifas dentro de cotas pré-estabelecidas. O Brasil era o maior fornecedor de placas de aço para o mercado americano antes de Washington suspender o arranjo e impor uma tarifa de 50%.
O etanol é outro teste para a diplomacia comercial. Lula recompos as tarifas sobre o biocombustível americano — que haviam sido temporariamente zeradas por Jair Bolsonaro em 2022 —, tornando o acesso ao mercado um ponto de atrito com a gestão Trump e objeto de investigação das autoridades americanas sobre práticas comerciais brasileiras.
Produtores brasileiros de etanol defendem que qualquer decisão de um eventual governo Bolsonaro no sentido de retirar a tarifa deve vir acompanhada de contrapartidas de Washington, como maior abertura ao açúcar brasileiro.
“Exigimos reciprocidade, não subserviência”, afirma Tarcilo Rodrigues, diretor da corretora Bioagência.
Minerais críticos
Enquanto Lula resistiu às investidas de Washington por uma parceria ampla em minerais críticos, Flávio Bolsonaro projeta o Brasil como resposta à estratégia americana de reduzir a dependência em relação a Pequim.
“O Brasil é a solução para os EUA quebrarem a dependência da China em minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”, declarou o candidato em março.
O Brasil detém as maiores reservas mundiais de nióbio e as segundas maiores de terras raras, atrás apenas da China, mas responde por menos de 1% do fornecimento global desses insumos.
Embora ambos os candidatos defendam o adensamento da cadeia de valor e do processamento no país, Bolsonaro coloca maior ênfase na atração de capital e tecnologia estrangeiros.
Sua campanha afirma que as parcerias estarão abertas a países dispostos a cooperar “sem preconceito ou viés ideológico” e promete dar maior celeridade ao licenciamento ambiental.
Carne bovina
Atualmente, o Brasil é alvo de tarifas de 25% sobre uma série de itens após alegações de Washington sobre práticas comerciais desleais.
Embora importantes produtos da pauta de exportação, como café, suco de laranja e carne bovina, estejam isentos dessa alíquota específica, o país ainda não dispõe de uma cota própria de importação de carne nos EUA — benefício concedido a concorrentes como a Argentina. Além disso, uma isenção tarifária temporária para a carne moída está prevista para expirar até o fim do ano.
O Brasil é o maior exportador global de carne bovina e destina cerca de metade dos seus embarques à China. No entanto, diante das restrições impostas por Pequim para proteger pecuaristas locais, os EUA emergiram como a principal alternativa para os frigoríficos brasileiros.
